A troca de acusações entre o portal Metrópoles e o jornal Folha de S.Paulo ganhou força após a divulgação de informações sobre a relação entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e veículos de comunicação. O episódio envolve o envio antecipado de textos jornalísticos ao banqueiro, contratos de publicidade milionários e mensagens sobre uma possível tentativa de interferir na publicação de reportagens.
A controvérsia começou após uma reportagem publicada pela Folha, com informações reveladas pelo UOL, apontar que ao menos 14 textos do Metrópoles foram encaminhados previamente a Vorcaro, dos quais 11 teriam passado por alterações. A CEO do grupo, Lilian Tahan, negou que o contrato publicitário de R$ 20 milhões tivesse relação com a cobertura de assuntos de interesse do banco.
Em reação, o Metrópoles questionou a atuação da Folha em uma reportagem publicada em agosto de 2024 sobre a expansão dos negócios de Vorcaro e os riscos associados ao Banco Master. O jornal, por sua vez, contestou as acusações e afirmou que o texto não foi retido nem amenizado para atender aos interesses do empresário.
Folha nega interferência de Vorcaro em reportagem
A matéria publicada em agosto de 2024 abordava o crescimento do grupo financeiro, seus resultados e questionamentos relacionados à solvência, às operações sob investigação, aos Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e às relações com autoridades.
Segundo a Folha, Guilherme Barros, então assessor de imprensa de Vorcaro, solicitou uma reunião para que o banqueiro apresentasse sua versão dos fatos. O pedido foi aceito, e a reportagem foi publicada após a conclusão da apuração.
O jornal também afirmou que concordou com a solicitação para que a visita não fosse registrada na coluna Painel, prática que, segundo a publicação, não seria incomum nesse tipo de situação.
Mensagens divulgadas recentemente indicariam que Vorcaro teria oferecido R$ 1 milhão a Barros caso ele conseguisse adiar ou impedir a publicação do texto. De acordo com a Folha, a reportagem não foi barrada e saiu em sua versão original. O jornal declarou ainda que seu diretor de Redação não tinha conhecimento do suposto pagamento até a divulgação das mensagens.
A publicação passou por uma atualização posterior para incluir informações sobre a prisão de Vorcaro e a liquidação do Banco Master, ocorridas em novembro de 2025.
Publicidade do Banco Master também entra na discussão
Outro ponto levantado pelo Metrópoles diz respeito aos valores recebidos pela Folha em publicidade de empresas ligadas a Vorcaro.
Em resposta às perguntas encaminhadas pelo portal, o jornal informou ter recebido R$ 516.441,60 em anúncios ao longo de cinco anos, entre 2021 e 2025. O valor corresponde a aproximadamente 2,58% dos R$ 20 milhões mencionados em um dos pagamentos feitos ao Metrópoles.
O caso também remete a uma reportagem publicada pelo Estadão em abril, segundo a qual o Banco Master pagou R$ 27,28 milhões ao Metrópoles, que teria transferido os recursos para empresas da família de Luiz Estevão. As operações foram apontadas como suspeitas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Itaú também contestou publicações do portal
A disputa ocorre em meio a outros conflitos envolvendo o Metrópoles. Em julho, o Itaú lançou o site Factópoles para responder a 42 reportagens e 50 publicações do portal, divulgadas ao longo de 70 dias. O banco alegou que os conteúdos continham distorções.
Outra possível frente de tensão mencionada no episódio envolve uma reportagem que estaria sendo preparada pela revista piauí sobre o Metrópoles e Luiz Estevão.
O caso amplia o debate sobre transparência nas relações entre veículos de comunicação, anunciantes e fontes jornalísticas. As acusações envolvendo os bastidores das reportagens, os contratos publicitários e as mensagens atribuídas aos envolvidos permanecem no centro da controvérsia, com versões distintas apresentadas pelas partes.