O assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para assuntos internacionais, Celso Amorim, criticou a iniciativa Escudo das Américas, liderada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo Amorim, a aliança representa uma tentativa de pressionar e cercar o Brasil sob o argumento de combater o crime organizado.
“Essa questão do Escudo das Américas põe o Brasil num cerco, cercado com base num argumento falso, que é tratar a questão do crime organizado como se fosse terrorismo internacional”, afirmou Amorim em entrevista ao canal Tutaméia TV, no YouTube.
Lançado em março, o Escudo das Américas reúne os Estados Unidos e países latino-americanos em uma iniciativa de cooperação na área de segurança. O grupo apoia medidas contra organizações criminosas que atuam na região, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), classificados pelo governo americano como organizações narcoterroristas.
As medidas incluem compartilhamento de informações de inteligência, coordenação de operações e sanções, como restrições migratórias e congelamento de bens.
Amorim afirmou que a atuação americana representa uma mudança na relação com o Brasil e criticou o que considera uma estratégia de influência sobre os países latino-americanos. “Na realidade, é um esquema de dominação absoluta. O problema deles é a China”, declarou.
Governo Lula rejeita classificação de facções como terroristas
O governo brasileiro se opõe à classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais. Entre as preocupações apontadas por integrantes do governo estão a possibilidade de medidas unilaterais dos Estados Unidos em território brasileiro e a aplicação de sanções contra empresas nacionais.
Especialistas em segurança também alertam que a mudança de classificação pode afetar os mecanismos atuais de cooperação internacional no combate às facções criminosas.
Flávio Bolsonaro defende adesão do Brasil
Na quarta-feira (7), o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, afirmou que pretende incluir o Brasil no Escudo das Américas caso seja eleito. A declaração foi feita durante uma conversa com Abelardo de la Espriella, político colombiano.
“Eu vou com muita vontade e muita honra querer fazer parte também do Escudo das Américas, para fazer uma cooperação com a Colômbia e com os demais países que queiram se unir para combater essas facções narcoterroristas”, afirmou.
Aliado de Trump, Flávio defende a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. A proposta contrasta com a posição adotada pelo governo Lula sobre o tema.
Disputa por influência na América Latina
A iniciativa faz parte da estratégia de política externa de Trump para ampliar a cooperação regional em segurança e combater organizações criminosas. A atuação americana também é associada à retomada de princípios da Doutrina Monroe, formulada no século 19 e historicamente vinculada à defesa da influência dos Estados Unidos sobre as Américas.
Trump passou a chamar essa abordagem de “Doutrina Donroe”, em referência ao próprio sobrenome.
Entre as ações recentes de Washington estão operações contra embarcações suspeitas de ligação com o tráfico de drogas e o aumento da pressão sobre governos da região. A atuação americana tem provocado críticas de autoridades que veem risco de interferência na soberania dos países latino-americanos.
Em discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro, Trump afirmou que poderia recorrer ao poder militar para proteger interesses nacionais dos Estados Unidos na região.
Em resposta, Lula declarou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” e alertou contra o que chamou de “tentações hegemônicas”.
Brasil e México não integram o Escudo das Américas, enquanto outros países da região aderiram à iniciativa. A divergência em torno do grupo evidencia diferenças entre os projetos de política externa defendidos pelo governo Lula e por Flávio Bolsonaro.