A Polícia Federal realizou, na tarde desta quinta-feira (24), uma operação no gabinete do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), em Brasília. A ação ocorre por determinação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que apura a atuação do magistrado em processos relacionados a precatórios do setor sucroalcooleiro. A PF participa da operação em apoio à Corregedoria Nacional de Justiça.
A ação faz parte de uma Correição Extraordinária, procedimento utilizado pelo CNJ para fiscalizar e auditar processos e condutas no Judiciário. Durante a operação, devem ser recolhidos dados de computadores e outros documentos relacionados aos processos sob análise.
Newton Ramos passou a ser citado nas investigações do caso Banco Master após mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, mencionarem o desembargador e sua mulher, a advogada Camilla Ramos. Nas conversas, assessores de Vorcaro utilizavam a expressão “Turma do KN”, que, segundo a apuração, faria referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques.
Contrato de R$ 427 milhões
A operação ocorre poucos dias depois de a PF identificar, no material extraído do celular de Vorcaro, um contrato de advocacia que poderia resultar no pagamento de até R$ 427 milhões ao escritório ligado a Camilla Ramos.
O acordo previa honorários de 5% sobre valores que poderiam chegar a aproximadamente R$ 8,5 bilhões em 12 processos envolvendo precatórios relacionados ao antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). O pagamento, segundo os documentos divulgados, estaria condicionado ao êxito nas ações. Não há confirmação de que os R$ 427 milhões tenham sido efetivamente pagos.
As mensagens também registram interlocuções de Newton Ramos com Vorcaro sobre pedidos atribuídos a Nunes Marques, incluindo hospedagens e outros benefícios. Em uma das conversas, aparece uma solicitação relacionada ao hotel Fasano. O ministro, porém, nega ter feito pedidos a Vorcaro ou ter autorizado terceiros a falar em seu nome.
Mansão durante o Carnaval
Outro episódio citado nas mensagens envolve a hospedagem de uma pessoa identificada como “KN” durante o Carnaval de 2025. Segundo a apuração, investigadores da PF associaram a identificação a Kassio Nunes Marques.
De acordo com as conversas, Vorcaro teria participado da organização da hospedagem em uma mansão no Rio de Janeiro pertencente ao ator Márcio Garcia. O imóvel, avaliado em cerca de R$ 250 milhões, teria sido alugado por aproximadamente R$ 1,45 milhão para uma semana. As mensagens também mencionam outros itens relacionados à estadia e à participação em eventos durante o Carnaval.
A existência das mensagens e dos contratos, por si só, não estabelece que tenha ocorrido favorecimento judicial ou prática criminosa. As circunstâncias são objeto de apurações administrativas e investigativas.
Apuração do CNJ
O CNJ passou a analisar a atuação de Newton Ramos após as informações encontradas no material apreendido pela PF. A investigação envolve processos relacionados a precatórios do setor sucroalcooleiro e busca verificar eventuais irregularidades na atuação do magistrado.
O caso ganhou repercussão depois que veio a público o contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de Camilla Ramos. Segundo o escritório, o contrato é formal e os honorários previstos não foram pagos, seja a título de pró-labore ou de êxito.
Nunes Marques nega envolvimento com Vorcaro e afirma que nunca trocou mensagens com o ex-banqueiro. Newton Ramos, por sua vez, declarou que não julgou processos do Banco Master e que sua relação com Vorcaro era pessoal. As apurações do CNJ e da Polícia Federal continuam.
