Duas versões de um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre os atos de 8 de janeiro de 2023 apresentam divergências sobre alertas enviados ao então ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Gonçalves Dias.
Os documentos foram apresentados nesta quinta-feira (10) a parlamentares da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI) do Congresso Nacional. Segundo parlamentares que tiveram acesso ao material em uma sessão secreta, a primeira versão, enviada ao Congresso em 20 de janeiro de 2023, não registrava 11 alertas encaminhados ao celular de Gê Dias entre os dias 6 e 8 de janeiro.
Esses mesmos alertas aparecem em uma segunda versão do relatório, enviada à comissão em 8 de maio. A primeira versão foi encaminhada após solicitação da própria CCAI. Já a segunda foi enviada por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em resposta a um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Na versão mais recente, assinada pelo atual diretor-adjunto da Abin, Alessandro Moretti, aparecem 11 registros de alertas enviados ao celular de Gonçalves Dias. Três deles teriam sido encaminhados exclusivamente ao então ministro.
Alertas mencionavam risco de invasões
Um dos alertas, enviado em 6 de janeiro, às 19h40, mencionava a convocação de manifestantes para Brasília e o risco de invasão do Congresso Nacional e de outros prédios da Esplanada dos Ministérios.
Outro comunicado, de 7 de janeiro, informava sobre a chegada prevista de 18 ônibus de outros estados e apontava a manutenção de convocações para ações violentas e tentativas de ocupação de prédios públicos.
Na manhã de 8 de janeiro, um dos alertas enviados exclusivamente a Gê Dias informava que cerca de 100 ônibus já haviam chegado a Brasília.
Divergência será investigada
A comparação entre os documentos levantou questionamentos entre os parlamentares que tiveram acesso ao material. Segundo eles, a diferença entre as duas versões é evidente, mas os documentos, por si só, não permitem identificar quem retirou as informações da primeira versão ou como a alteração teria sido realizada.
A cúpula da Abin também participou da reunião reservada da CCAI e tomou conhecimento da divergência.
Gonçalves Dias deixou o comando do GSI após a divulgação de imagens das câmeras do Palácio do Planalto durante a invasão de 8 de janeiro. Nas gravações, o então ministro aparece circulando pelo prédio enquanto os invasores permaneciam no local.
Em depoimento à Polícia Federal, Gê Dias negou ter recebido alertas da Abin sobre os riscos de invasão dos prédios dos Três Poderes. Ele manteve a negativa mesmo após a divulgação do conteúdo dos alertas pela imprensa.
A divergência entre as duas versões do relatório deve ser analisada no âmbito das investigações sobre os atos de 8 de janeiro e pode se tornar um dos focos de apuração da comissão parlamentar.
A defesa de Gonçalves Dias, o diretor-adjunto da Abin, Alessandro Moretti, e o ex-diretor-adjunto Saulo Moura da Cunha foram procurados para comentar o caso, mas não haviam respondido até a publicação da reportagem.
Com informações de O Globo.
