Diante da possibilidade de uma inédita abertura de investigação contra um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes aposta, segundo a reportagem, em uma estratégia articulada por aliados para apresentar uma série de questões preliminares durante o julgamento marcado para esta terça-feira (15).
A movimentação já vinha sendo sinalizada pela disputa em torno do sigilo do caso Banco Master e pelo acesso ao conteúdo extraído do celular do banqueiro Daniel Vorcaro. Entre as mensagens analisadas estão 52 conversas trocadas com Moraes. Em uma delas, de 15 de novembro de 2025, Vorcaro perguntou ao ministro: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Dois dias depois, ele foi preso no aeroporto de Guarulhos quando tentava embarcar para Dubai.
De acordo com a reportagem, ministros aliados de Moraes, como Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Flávio Dino, levantaram pelo menos sete questões preliminares que poderiam impedir que o plenário avance para a análise do mérito do caso.
Uma das principais discussões envolve o formato da sessão: se será aberta, como defende o presidente do STF, Edson Fachin, ou fechada, como deseja o grupo de Moraes. Também deverá ser discutido qual quórum seria necessário para autorizar uma eventual investigação: dois terços ou maioria do plenário.
Segundo a apuração, a definição do formato da sessão pode ter impacto sobre o resultado, já que integrantes do grupo avaliam que uma sessão fechada poderia influenciar votos de ministros considerados mais suscetíveis à pressão.
Pedidos de suspeição podem entrar em pauta
Outra possibilidade seria tentar afastar do julgamento ministros que, segundo avaliações de bastidores citadas pela reportagem, tendem a votar pela abertura da investigação.
Estariam entre os alvos de pedidos de suspeição André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. A justificativa estaria relacionada a possíveis menções aos ministros em mensagens extraídas do celular de Vorcaro.
Gilmar Mendes e Cristiano Zanin vêm solicitando o acesso à íntegra das mensagens, que poderia ser utilizada para fundamentar eventuais pedidos de suspeição.
A reportagem cita ainda outras questões que poderiam ser levantadas, como a suposta ilicitude das provas e o parecer do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que defendeu o arquivamento do relatório policial sobre as mensagens entre Moraes e Vorcaro.
Gonet também aparece mencionado no relatório e, segundo o texto, vem sendo pressionado por integrantes do Ministério Público Federal (MPF) para não atuar no caso.
Grupo quer julgamento conjunto com caso de Mendonça
Outra estratégia seria tentar fazer com que o caso envolvendo Moraes fosse analisado conjuntamente com o pedido feito pelo próprio ministro para que André Mendonça também seja investigado.
A ideia seria equiparar as condutas atribuídas aos dois ministros. Fachin, no entanto, já havia rejeitado a análise conjunta antes do julgamento, mas o tema pode voltar a ser levantado na sessão extraordinária marcada para começar às 10h desta terça-feira.
Moraes acusa Mendonça, com base em relatórios da Polícia Federal que classifica como apócrifos, de possíveis irregularidades como improbidade administrativa, abuso de autoridade, crime de responsabilidade, direcionamento de investigações e quebra da cadeia de custódia.
Esses argumentos também poderiam, segundo a reportagem, abrir espaço para questionamentos sobre a validade das investigações que estavam sob condução de Mendonça antes de serem remetidas à Presidência do STF por determinação de Fachin.
Estratégia é comparada à usada por réus da trama golpista
A reportagem também compara a estratégia de Moraes à utilizada pelas defesas de réus condenados no processo sobre a trama golpista, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro e integrantes das Forças Armadas.
Moraes tem questionado a condução das investigações, a forma como delações teriam sido tratadas, a atuação do relator do caso Master, o acesso às provas e o respeito à cadeia de custódia. Segundo o texto, essas teses poderiam levar até mesmo a um pedido de nulidade das investigações.
Durante os julgamentos da trama golpista, porém, argumentos semelhantes apresentados pelas defesas dos réus foram rejeitados por Moraes e pela Primeira Turma do STF, colegiado que também é formado por Flávio Dino, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia.
Agora, diante da possibilidade de ser alvo de investigação, Moraes passa a enfrentar situação semelhante àquelas apresentadas pelas defesas que anteriormente julgou.
Com informações de O Globo