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Início Brasil

Relatório da PF não confirma crime apontado por Moraes contra blogueiro

Por Junior Melo
19/ago/2026
Em Brasil
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

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Um relatório de inteligência da Polícia Federal (PF) utilizado para fundamentar uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), não identificou indícios de que o blogueiro Luís Pablo tenha cometido crime de violação de sigilo funcional. O documento também afirma não ser possível “apontar com máxima certeza” que o jornalista tenha recebido dinheiro para produzir reportagens sobre o ministro Flávio Dino.

Apesar das conclusões, Moraes afirmou em sua decisão haver indícios relevantes de que Luís Pablo poderia ter cometido o crime de perseguição contra o colega de Corte. A manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR), que se posicionou favoravelmente às diligências, foi citada pelo ministro.

Luís Pablo mantém um blog voltado à política do Maranhão. Desde novembro de 2025, o jornalista publicou reportagens sobre o uso de um veículo oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão por Flávio Dino e familiares. O ministro nega que tenha ocorrido utilização irregular do automóvel.

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Em março deste ano, em razão das publicações, Luís Pablo foi alvo de uma operação autorizada por Moraes. Na ocasião, foram apreendidos dois celulares, um notebook e um pen drive. O material permitiu aos investigadores identificar a fonte das informações utilizadas pelo jornalista.

Ao autorizar a operação, Moraes apontou a existência de um possível risco à integridade física de Dino. Na decisão, o ministro mencionou:

“do suporte material (envio de informações e discussões sobre a redação e teor das matérias publicadas) e financeiro prestado a Luís Pablo, com indício de tentativas de exclusão de mensagens eletrônicas relevantes para a investigação”.

Investigação começou após pedido de Dino

A investigação foi instaurada a partir de um pedido apresentado por Flávio Dino. Inicialmente, o processo ficou sob relatoria do ministro Cristiano Zanin.

Posteriormente, o caso foi redistribuído depois que o presidente do STF, Edson Fachin, considerou que a investigação apresentava relação com os inquéritos das fake news e das milícias digitais, que já estavam sob relatoria de Moraes.

A primeira operação permitiu aos investigadores identificar como fonte do blogueiro o ex-secretário Raimundo Cutrim. Ele também é investigado em outro inquérito relacionado ao assassinato de um funcionário da Secretaria de Educação do Maranhão, processo que está sob relatoria de Dino, que governou o estado entre 2015 e 2022.

Depois da identificação de Cutrim, os investigadores solicitaram autorização para uma nova operação de busca e apreensão, realizada na semana passada.

PF diferencia atuação do jornalista e da fonte

O relatório sigiloso utilizado para fundamentar o pedido de novas diligências analisa mensagens trocadas entre Raimundo Cutrim e Luís Pablo. Os diálogos mostram o ex-secretário encaminhando ao jornalista imagens e documentos.

Segundo a análise da PF, Luís Pablo recebeu o material por meio do WhatsApp e também se encontrou pessoalmente com a fonte. Os investigadores, entretanto, não apontaram participação do jornalista em atos de perseguição.

O documento classifica o blogueiro como alguém que adota uma postura considerada tendenciosa contra Flávio Dino e que produz reportagens que o apresentam “como influente político contrário ao governo do Maranhão”.

Ao encaminhar o relatório ao STF, o delegado Alberto Knoll fez uma distinção entre a atuação do jornalista e a da fonte.

“Não se trata de acusar o jornalista do cometimento de tal crime, já que o mesmo, em tese, está acobertado pelo direito à liberdade de imprensa, amplamente reconhecido em nossos tribunais”.

Sobre a conduta atribuída ao ex-secretário, o delegado afirmou:

“a conduta de possível agente público que acessa dados restritos e os divulga de forma irregular para publicação através de veículo de imprensa, essa sim pode ser enquadrada no crime tipificado no art. 325 do Código Penal (violação do sigilo funcional).”

O delegado também mencionou uma negociação envolvendo a compra de um terreno por Luís Pablo. Uma das parcelas teria sido paga pelo advogado Diogo Lima, que ocupou o cargo de secretário de Habitação de São Luís durante a administração de Edivaldo Holanda Júnior (PDT), aliado político de Dino.

A investigação, contudo, também não relacionou a atuação do jornalista nessa negociação ao crime de perseguição.

Conversas e compra de terreno

Na análise do conteúdo apreendido no computador de Luís Pablo, os investigadores encontraram conversas entre o jornalista e Diogo Lima.

Nos diálogos, Luís Pablo encaminhava ao advogado reportagens críticas a Flávio Dino. Lima comentava os textos e, em algumas ocasiões, sugeria alterações. O advogado também foi alvo das buscas autorizadas por Moraes na semana passada.

Em uma das conversas, os dois trataram de uma transferência bancária destinada a Danilo Cutrim Bezerra, veterinário que vendeu um terreno ao jornalista.

Embora o sobrenome de Danilo seja igual ao de Raimundo Cutrim, identificado como fonte de Luís Pablo, a PF afirma não ter conseguido determinar se existe algum grau de parentesco entre os dois.

O relatório ressalta que o sobrenome Cutrim é comum no Maranhão:

“Verificou-se ainda que o sobrenome Cutrim tem elevada incidência no Estado do Maranhão, segundo fontes do IBGE, sendo utilizado por aproximadamente 14.778 pessoas”.

As mensagens analisadas mostram Diogo Lima enviando ao jornalista imagens de um comprovante referente a um depósito de R$ 100 mil feito por uma conta de sua titularidade para Danilo Cutrim.

Segundo a PF, o valor teria sido utilizado no pagamento de um imóvel rural avaliado em R$ 461 mil, adquirido por Luís Pablo. A investigação aponta que a propriedade foi quitada por meio de depósitos realizados por diferentes pagadores, entre eles Lima.

Após receber o comprovante, Luís Pablo escreveu:

“Meu irmão não tem palavras [sic], mesmo sabendo que você é um cara que posso contar pra tudo, mas você me surpreende. Você é um cara de coração enorme, Deus te abençoe sempre”.

Lima respondeu:

“Oh meu irmão. Vc é muito querido pra mim [sic]. Não ia deixar vc perder seu sonho”.

Notas fiscais da Assembleia Legislativa

O material analisado pela PF também contém notas fiscais emitidas em nome da Assembleia Legislativa do Maranhão em favor do Blog Luís Pablo. Os documentos apresentam valores que variam entre R$ 12 mil e R$ 17,5 mil.

Questionado sobre a origem dos pagamentos, Luís Pablo afirmou que os valores correspondem à veiculação de banners publicitários em seu blog.

“Todo mês mando. Foi suspenso no mês passado em razão das eleições e da legislação eleitoral”, afirmou o jornalista.

Luís Pablo também declarou que os pagamentos não seriam exclusivos de seu veículo:

“Não é só para mim. São vários veículos de comunicação, entre blog, rádio e TV. [O valor] É pago pela agência de marketing que é contratada pela Assembleia”.

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