Após sete meses de guerra, o Irã ainda não demonstra pressa para encerrar o conflito com os Estados Unidos e Israel, apesar dos impactos sobre sua economia, infraestrutura e capacidade militar. A estratégia de Teerã parece estar baseada na tentativa de aumentar os custos do confronto para os adversários e, assim, fortalecer sua posição em eventuais negociações.
A questão central, porém, é saber por quanto tempo o Irã conseguirá sustentar a guerra sem que os custos internos se tornem maiores do que os possíveis ganhos políticos e militares.
Capacidade militar ainda permite prolongar o conflito
Parte da indústria de defesa e das instalações de produção de mísseis iranianas foi atingida por ataques. No entanto, não existem dados independentes suficientes para dimensionar os danos ou determinar quantos mísseis o país ainda possui.
O número de mísseis balísticos utilizados pelo Irã em cada ataque vem diminuindo, mas a capacidade militar iraniana não depende exclusivamente desse tipo de armamento. Drones e mísseis de cruzeiro podem ser produzidos com maior rapidez, enquanto a estrutura de comando do país permanece funcionando, apesar da morte de comandantes durante o conflito.
Para Mohammad Ghaedi, professor de relações internacionais da Universidade George Washington, o Irã provavelmente ainda consegue manter sua capacidade de realizar lançamentos por um longo período, embora em intensidade menor.
O país também mantém capacidade de provocar instabilidade no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo. Antes da guerra, cerca de 20% da produção global de petróleo passava pela região.
A estratégia iraniana também considera os custos do conflito para os Estados Unidos. A defesa norte-americana já utilizou parte de seus estoques de munições para interceptar mísseis e drones iranianos, enquanto análises apontam dificuldades para uma reposição rápida desse arsenal.
Economia sofre com guerra prolongada
A capacidade de manter o conflito, entretanto, não depende apenas das condições militares. Antes mesmo da guerra, o Irã já enfrentava inflação elevada, falta de investimentos, desvalorização do rial e problemas estruturais.
Segundo estimativas do Banco Mundial, o Produto Interno Bruto (PIB) iraniano caiu cerca de 2,7% no ano fiscal de 2025-26, período em que apenas as últimas semanas coincidiram com a guerra.
O conflito agravou a situação. Dados do Centro de Estatísticas do Irã apontam que a inflação acumulada em 12 meses chegou a 62%. Nas províncias do sul, mais expostas aos efeitos da guerra, a pressão foi ainda maior. Em Hormozgan, por exemplo, a inflação ultrapassou 101%.
O mercado de trabalho também foi afetado. Mais de 1 milhão de postos foram perdidos em decorrência da guerra, deixando cerca de 2 milhões de pessoas direta ou indiretamente desempregadas, segundo o vice-ministro do Trabalho iraniano.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê uma contração de aproximadamente 5,4% da economia iraniana em 2026 e estima que a inflação possa se aproximar de 69%.
O Estreito de Ormuz representa, nesse cenário, uma espécie de arma de dois gumes. Qualquer interrupção no tráfego da região pode elevar os custos econômicos para os Estados Unidos e provocar impactos no mercado mundial de energia. Ao mesmo tempo, as restrições à navegação e a atuação da Marinha norte-americana também dificultam as próprias exportações de petróleo iranianas.
Governo iraniano tem divergências sobre a guerra
Dentro do próprio governo iraniano, não existe consenso sobre quanto tempo o conflito deve continuar.
Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento e chefe da delegação iraniana nas negociações, já alertou que o país não deveria ser arrastado para uma “guerra de desgaste”. Ele também criticou setores contrários às negociações.
Em posição oposta, o deputado linha-dura Amirhossein Sabeti afirmou que a guerra continuaria mesmo que os Estados Unidos aceitassem todas as condições apresentadas pelo Irã e assinassem um acordo.
A divisão, entretanto, não se resume simplesmente a grupos favoráveis à guerra e à paz. Ghalibaf também defende que qualquer acordo preserve os direitos do Irã. A principal divergência está em definir até que ponto a continuidade da pressão pode melhorar a posição iraniana nas negociações e quando os custos passam a superar os benefícios.
Também não existem pesquisas independentes e confiáveis suficientes para determinar a opinião da população iraniana sobre a continuidade do conflito.
Para Hamidreza Azizi, especialista em Irã e pesquisador visitante do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança, a maior ameaça à República Islâmica pode estar dentro do próprio país. Inflação elevada, crise econômica e problemas de infraestrutura podem aumentar o descontentamento e transformar a situação interna na principal frente de risco para o governo.
Guerra prolongada pode prejudicar relações regionais
A continuidade do conflito também pode afetar a posição do Irã no Oriente Médio. Nos últimos anos, Teerã vinha tentando melhorar suas relações com países árabes do Golfo, especialmente a Arábia Saudita.
A manutenção de ataques contra bases, instalações e rotas marítimas desses países pode comprometer essa aproximação. Caso os governos da região se sintam cada vez mais ameaçados pelo Irã ou por grupos aliados ao país, a tendência pode ser de maior cooperação militar com os Estados Unidos.
Para Teerã, portanto, prolongar a guerra só terá vantagem política se a pressão exercida sobre Washington resultar em concessões durante as negociações.
O principal desafio é transformar as vantagens obtidas no campo militar em um acordo político capaz de garantir ao Irã condições consideradas aceitáveis para encerrar o conflito.
Até agora, os limites militares, econômicos e políticos não foram suficientes, isoladamente, para obrigar o Irã a abandonar a guerra. No entanto, quanto mais o conflito se prolongar, maior tende a ser a pressão sobre a economia iraniana, maiores podem ser os danos às relações com os países vizinhos e mais complexa pode se tornar a construção de um acordo que justifique os custos acumulados durante a guerra.
