O governo do Paraguai entregou nesta sexta-feira (31) uma nota oficial ao embaixador brasileiro em Assunção, José Antonio Marcondes, manifestando “desagrado e rejeição absoluta” às declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a Guerra do Paraguai.
No documento, as autoridades paraguaias pedem a devolução de canhões, troféus de guerra e documentos históricosque permanecem sob posse do Brasil. O governo do país vizinho afirmou que as falas do presidente brasileiro apresentaram o conflito de maneira “distorcida” e trataram de um tema considerado sensível para a memória nacional paraguaia.
A reação ocorre após Lula comentar a Guerra do Paraguai (1864-1870) durante um evento na semana passada. O presidente afirmou que o Paraguai “resolveu invadir o Brasil” e também mencionou a participação do país no conflito envolvendo Brasil, Argentina e Uruguai.
A declaração gerou críticas no Paraguai. O Congresso do país divulgou uma nota de repúdio, afirmando que Lula teria minimizado a dimensão histórica da guerra e ignorado o sofrimento causado ao povo paraguaio.
O presidente da Câmara dos Deputados paraguaia, Raúl Latorre, classificou o conflito como “a maior tragédia da história” do país e afirmou que a Guerra da Tríplice Aliança deixou marcas profundas na população paraguaia.
Debate histórico
Historiadores apontam que a Guerra do Paraguai teve origem em uma complexa disputa política envolvendo a região do Rio da Prata. Segundo o historiador Francisco Doratioto, autor de Maldita Guerra, o Paraguai, governado pelo ditador Solano López, decidiu entrar no conflito após tensões envolvendo o Uruguai e acabou invadindo territórios do Brasil e da Argentina.
O Brasil, a Argentina e o Uruguai formaram a chamada Tríplice Aliança contra o Paraguai. O conflito terminou em 1870 com a derrota paraguaia e provocou enormes perdas humanas, econômicas e sociais para o país.
A guerra também gerou consequências profundas para todos os envolvidos. O Brasil teve grandes gastos militares, precisou aumentar impostos, emitir moeda e contrair empréstimos para financiar o esforço de guerra.
A discussão reacendeu uma antiga disputa sobre a interpretação histórica do conflito e sobre a preservação de objetos e documentos relacionados à Guerra do Paraguai que permanecem em instituições brasileiras.