A Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou nesta quarta-feira (22) uma proposta de orçamento de defesa considerada histórica, com autorização para gastos de até US$ 1,15 trilhão (cerca de R$ 5,8 trilhões) destinados às Forças Armadas no ano fiscal de 2027.
A aprovação ocorreu por uma margem estreita: 216 deputados votaram a favor do projeto, enquanto 212 foram contrários. A decisão seguiu, em grande parte, a divisão entre os partidos. Entre os republicanos, apenas sete parlamentares votaram contra a medida, enquanto seis democratas apoiaram o texto.
A proposta, conhecida como Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA), ainda precisa ser analisada pelo Senado antes de seguir para a sanção presidencial.
Democratas criticaram o aumento expressivo dos recursos destinados ao Pentágono, especialmente em um momento em que o governo do presidente Donald Trump e aliados republicanos promovem cortes em programas sociais. O partido também questiona os gastos relacionados à guerra contra o Irã, conflito que, segundo dados do Pentágono, já teria custado US$ 37,5 bilhões aos Estados Unidos.
Já os republicanos defendem que o aumento do orçamento é necessário para garantir recursos às tropas, ampliar sistemas de defesa, adquirir novos equipamentos e melhorar benefícios destinados aos militares. Entre as medidas previstas estão reajustes salariais de até 7% para integrantes das Forças Armadas e investimentos em alojamentos e moradias para famílias de militares.
O orçamento militar americano aprovado para 2026 já se aproxima de US$ 1 trilhão. O governo Trump havia indicado anteriormente a intenção de elevar esse valor em 50% no próximo ano fiscal, alcançando cerca de US$ 1,5 trilhão em despesas com defesa.
Caso essa proposta seja confirmada pelo Congresso, o volume de recursos destinado às Forças Armadas dos Estados Unidos superaria os gastos militares combinados de países como China, Rússia, Alemanha, Índia, Reino Unido, Ucrânia, Arábia Saudita, França, Japão, Israel, Itália, Coreia do Sul, Polônia, Espanha, Canadá, Austrália, Turquia e Holanda, segundo estimativas do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri).
Para comparação, o orçamento do Ministério da Defesa do Brasil gira em torno de R$ 145,7 bilhões, valor equivalente a aproximadamente 2,5% do montante aprovado pela Câmara americana.
Outro ponto de preocupação entre os democratas é uma medida incluída no projeto que amplia a cooperação em tecnologia militar entre Estados Unidos e Israel. A iniciativa ocorre em meio a pedidos de parte da população americana para reduzir o apoio militar ao país aliado.
A NDAA é tradicionalmente considerada uma legislação prioritária no Congresso americano e costuma receber apoio dos dois partidos. O projeto foi aprovado e transformado em lei durante 65 anos consecutivos, mas a edição deste ano enfrenta dificuldades devido às disputas políticas envolvendo o tamanho do orçamento militar, a guerra no Irã, o apoio à Ucrânia e Israel, além de temas ligados a debates sociais.
O andamento da proposta também ficou mais complexo após os republicanos decidirem vincular a NDAA à chamada “Lei Save America”, projeto apoiado por Trump que prevê mudanças nas regras eleitorais. A estratégia gerou dúvidas sobre a tramitação no Senado, onde a legislação eleitoral enfrenta resistência por falta de apoio suficiente.
Na semana passada, senadores democratas bloquearam uma versão anterior da NDAA. Líderes republicanos afirmaram que pretendem tentar novamente avançar com o projeto antes do início do recesso parlamentar de agosto.
O processo de aprovação ainda está em fase inicial. Todos os anos, Câmara e Senado elaboram suas próprias versões do orçamento de defesa. Depois, representantes dos dois lados negociam uma versão final, que precisa ser aprovada pelas duas Casas antes de chegar à Casa Branca para decisão do presidente.
Plano paralelo prevê US$ 95 bilhões em novos gastos
Além da NDAA, a Câmara também aprovou outro plano orçamentário republicano que permite ao partido utilizar um mecanismo especial para liberar US$ 95 bilhões em novos gastos no Senado.
A proposta foi aprovada por uma diferença ainda menor, com 216 votos favoráveis e 214 contrários. O objetivo é permitir a aprovação dos recursos sem depender de algumas regras tradicionais que dão maior poder de influência à oposição.
Do total previsto, US$ 60 bilhões seriam destinados ao Pentágono, além dos valores já reservados para o setor militar em 2026.
Durante o debate, o presidente do Comitê de Orçamento da Câmara, deputado Jodey Arrington, afirmou que os recursos seriam utilizados para garantir condições às tropas, incluindo munições, equipamentos e preparação para operações militares.
O deputado Brendan Boyle, democrata da Pensilvânia, criticou a medida e afirmou que o novo pacote aumentaria o déficit público americano em quase US$ 100 bilhões em um momento em que a dívida nacional se aproxima de US$ 40 trilhões.
“Nada para reduzir os preços da gasolina. Nada para diminuir o custo dos alimentos. Apenas mais gastos em uma guerra impopular”, declarou o parlamentar.
O Comitê por um Orçamento Federal Responsável, organização independente, avaliou que o custo real do pacote pode chegar a US$ 130 bilhões quando considerados os juros da dívida gerada pelo financiamento dos recursos.
A entidade também alertou que o Congresso tem recorrido repetidamente a mecanismos especiais para aprovar gastos, com promessas de compensações futuras que, segundo o grupo, ainda não foram cumpridas.
Além dos investimentos militares, o pacote inclui US$ 12 bilhões em novos recursos de apoio a agricultores afetados pelo aumento dos custos de combustível e fertilizantes, impactos relacionados às tarifas ampliadas pelo governo Trump sobre produtos estrangeiros.
