A menos de três meses do primeiro turno das eleições, o novo pacote de tarifas anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, levou a equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a ajustar a estratégia da pré-campanha à reeleição. Nos bastidores do partido, a avaliação é que a medida reforça uma narrativa que já vinha sendo construída para a disputa de 2026, centrada na defesa da soberania nacional.
Segundo integrantes da pré-campanha, o aumento das tarifas amplia o alcance desse discurso ao permitir que temas de política interna sejam associados ao cenário internacional.
A estratégia é transformar a soberania no principal eixo da campanha. A proposta é apresentar Lula como representante de um “Brasil do bem viver”, relacionando a melhoria das condições de vida da população às propostas que estão sendo elaboradas para o programa de governo. A partir desse conceito, a campanha pretende abordar assuntos como segurança pública, crescimento econômico e ampliação da proteção social, vinculando-os à ideia de autonomia nacional.
Na avaliação de aliados do presidente, o novo contexto internacional fortalece essa linha de comunicação. O entendimento é que a decisão de Trump cria um ambiente favorável para estabelecer um contraste entre um governo que busca defender os interesses do país e adversários que, segundo essa estratégia, estariam alinhados a pressões externas.
A expectativa é que esse discurso tenha destaque durante a convenção nacional do PT, marcada para o dia 2 de agosto, em São Paulo, quando a candidatura de Lula deverá ser oficializada e a defesa da soberania nacional será apresentada como uma das principais marcas da campanha.
O episódio também acelerou a estratégia de comunicação da pré-campanha. Até então, o foco estava concentrado em pautas internas, como a discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1. Após o anúncio da sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, integrantes da equipe passaram a orientar militantes a relacionar a medida adotada pelos Estados Unidos à atuação da família do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Com o slogan “TariFlávio”, a campanha pretende sustentar a narrativa de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e seus aliados teriam agido contra a economia brasileira e a soberania nacional. Nas redes sociais, o PT passou a divulgar conteúdos incentivando a militância a “espalhar a verdade” sobre a origem do tarifaço, classificando integrantes da família Bolsonaro como “traidores da pátria”.
A estratégia também foi defendida pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, que integra a coordenação política da pré-campanha. Em mensagem encaminhada à militância, o ministro afirmou que o tarifaço teria “dois pais”: Donald Trump e Flávio Bolsonaro, atribuindo ao senador responsabilidade pela medida em razão de interesses eleitorais.
Além da mobilização nas redes sociais, a equipe de Lula acompanha a reação dos demais pré-candidatos à Presidência. O objetivo é ajustar a comunicação de acordo com a evolução da disputa de narrativas e explorar possíveis divergências entre os adversários sobre a crise comercial envolvendo Brasil e Estados Unidos.
No partido, a avaliação é de que pesquisas recentes indicam um ambiente mais favorável para esse discurso. Levantamento Genial/Quaest divulgado na quinta-feira (16) apontou que 51% dos entrevistados concordam com a afirmação de Lula de que Flávio Bolsonaro solicitou a Donald Trump a imposição das tarifas contra produtos brasileiros. Em junho, esse índice era de 47%.
Embora a defesa da soberania seja tratada como o principal conceito da campanha, o PT ainda não definiu qual será sua principal bandeira econômica para as eleições.
Nas discussões internas, prevalece a orientação de evitar um programa baseado em novas promessas e concentrar a campanha na continuidade das políticas implementadas durante o terceiro mandato, além da conclusão de projetos considerados estratégicos.
Entre as propostas em análise estão a implantação da tarifa zero no transporte público urbano, incluindo ônibus, metrôs e trens, além da continuidade da política de atualização da faixa de isenção do Imposto de Renda.
Algumas medidas cogitadas para integrar o programa, no entanto, já foram adotadas pelo governo neste ano, como a ampliação do limite de faturamento do Microempreendedor Individual (MEI). Nos bastidores, há o entendimento de que transformar iniciativas já executadas em promessas eleitorais poderia gerar questionamentos sobre a demora para sua implementação.
A avaliação predominante dentro do PT é que um eventual quarto mandato de Lula deverá priorizar a consolidação de reformas e políticas públicas estruturantes, com foco em ações de longo prazo. Nesse contexto, a defesa da soberania nacional é vista como o conceito capaz de reunir as diferentes propostas e orientar a estratégia eleitoral do partido.
