A imposição de tarifas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros aumentou o desafio do país em encontrar novos mercados para sua produção industrial. Embora a China tenha ampliado as compras de produtos brasileiros e ajudado a manter o ritmo das exportações, especialistas avaliam que o mercado chinês não consegue substituir completamente a demanda norte-americana.
A diferença está principalmente no perfil dos produtos adquiridos por cada país. Enquanto a China concentra suas compras em commodities, como soja, minério de ferro, petróleo e celulose, os Estados Unidos possuem maior participação na aquisição de produtos industrializados e de maior valor agregado.
“A China compra uma pauta diferente da dos Estados Unidos. Há espaço para ampliar as vendas de soja, minério de ferro, petróleo, celulose e açúcar, mas a cota chinesa para a carne bovina limita uma expansão maior desse produto”, explicou Jackson Campos, especialista em comércio exterior.
Os Estados Unidos anunciaram a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, com validade a partir de 22 de julho. A medida inclui uma lista de exceções que preserva alguns itens relevantes da pauta exportadora do Brasil, como carne e suco de laranja.
Segundo especialistas, o impacto deve ser maior sobre setores industriais, como máquinas, madeira, transformadores, aço, etanol e outros segmentos da indústria de transformação. A extensão dos efeitos dependerá da capacidade das empresas brasileiras de absorver os custos ou encontrar compradores alternativos.
China ajuda, mas não substitui mercado americano
No primeiro semestre, as exportações brasileiras para a China cresceram 22%, alcançando US$ 58,3 bilhões. Apesar do avanço, analistas destacam que a compensação é limitada, já que os dois países possuem demandas diferentes.
Para Humberto Aillon, professor da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), substituir compradores de produtos manufaturados é mais difícil do que ampliar vendas de commodities.
“A China absorve commodities, mas não compra os manufaturados que os Estados Unidos taxaram. Repor produtos industrializados no mercado internacional é muito mais complexo do que recolocar commodities”, afirmou.
Segundo ele, setores como madeira, ferro-gusa, etanol, açúcar bruto, máquinas, calçados e produtos têxteis estão entre os mais vulneráveis ao impacto das novas tarifas.
Os números já mostram uma redução das vendas brasileiras ao mercado americano. No primeiro semestre, as exportações para os Estados Unidos caíram 13% em comparação ao mesmo período de 2025, somando US$ 17,4 bilhões. Com isso, a participação americana nas exportações brasileiras caiu para 9,4%, o menor percentual registrado em um primeiro semestre desde 1997.
União Europeia e Ásia aparecem como alternativas
Allan Gallo, professor de Economia e Direito Internacional da Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador de estudos sobre a China, afirmou que o país asiático continua sendo um importante suporte para o comércio exterior brasileiro, mas possui limitações.
Segundo ele, a China pode ampliar compras de produtos como soja, minério de ferro, celulose, algodão e petróleo, mas dificilmente compensará as perdas nos segmentos industriais exportados para os Estados Unidos.
“O Brasil consegue manter sua balança comercial, mas não existe uma substituição perfeita. A carne bovina é um dos principais desafios, já que a cota chinesa limita uma expansão maior”, afirmou.
Além da China, a União Europeia aparece como uma das principais alternativas para ampliar mercados. O bloco registrou crescimento de 12,8% nas compras de produtos brasileiros no primeiro semestre, impulsionado principalmente por itens do agronegócio.
Outras regiões, como Índia, Oriente Médio e Sudeste Asiático, também são vistas como oportunidades, especialmente para commodities como petróleo, café, açúcar, milho, algodão e minerais.
Para Jackson Campos, esses mercados podem ampliar as compras de produtos brasileiros, incluindo alguns itens industriais, dependendo das condições comerciais de cada região.
Diversificação passa a ser estratégia de longo prazo
Especialistas avaliam que a busca por novos parceiros comerciais não deve ocorrer apenas como reação às tarifas americanas, mas como uma estratégia permanente para reduzir riscos.
Humberto Aillon destacou que o Brasil conseguiu registrar crescimento nas exportações totais mesmo diante da queda nas vendas aos Estados Unidos. No primeiro semestre, as exportações brasileiras cresceram 11,5%, alcançando o recorde de US$ 184,8 bilhões.
Para ele, o país precisa evitar substituir uma dependência comercial por outra, lembrando que a China também adota medidas de proteção quando considera necessário.
“O Brasil não pode trocar uma dependência por outra. A China também utiliza instrumentos comerciais, como ocorreu com a limitação da carne bovina”, afirmou.
Sergio Goldbaum, professor da Escola de Políticas Públicas, Governo e Empresas da FGV de Brasília, afirmou que a diversificação dos destinos das exportações brasileiras já está em andamento, mas ressaltou que mudanças no comércio internacional exigem planejamento.
Segundo ele, contratos, transporte, seguros, fornecedores e burocracias fazem com que uma alteração de mercado não aconteça de forma imediata.
“Qualquer mudança no cenário comercial leva tempo para apresentar resultados. Mas, se a política dos Estados Unidos em relação ao Brasil continuar, a tendência é que parte das exportações seja direcionada para outros destinos”, avaliou.
Negociação com os EUA ainda é possível
Apesar das discussões sobre uma possível renegociação das tarifas, especialistas divergem sobre o prazo para uma solução.
Jackson Campos avalia que questões comerciais podem avançar independentemente do calendário eleitoral, caso haja interesse econômico entre os dois países.
Já Humberto Aillon considera que uma negociação mais ampla pode ficar para o próximo mandato presidencial, devido ao caráter político da decisão americana e aos temas envolvidos, como Pix, etanol e propriedade intelectual.
Para ele, porém, ajustes pontuais e negociações sobre produtos específicos continuam possíveis.
Allan Gallo afirmou que um acordo mais abrangente entre Brasil e Estados Unidos antes de outubro de 2026 é improvável, mas ressaltou que a Seção 301, usada pelo governo americano para aplicar as tarifas, é um mecanismo administrativo que pode ser alterado a qualquer momento.
