Criado pelo governo federal para facilitar a renovação da frota de taxistas e motoristas de aplicativo, o programa Move Brasil oferece uma linha de crédito de até R$ 30 bilhões e tende a favorecer, principalmente, as montadoras chinesas que atuam no mercado brasileiro.
Embora o programa também contemple veículos com motorização flex, as regras de financiamento e o perfil dos automóveis enquadrados nos critérios estabelecidos pelo governo ampliam a competitividade de fabricantes como BYD, GWM e Geely. Essas empresas concentram boa parte dos modelos elétricos e híbridos com preço de até R$ 150 mil, limite definido pelo programa, além de manterem estoques elevados de veículos no país.
Pelas regras do Move Brasil, o financiamento pode cobrir até 100% do valor do veículo, com prazo de carência de seis meses e juros limitados a 12,6% ao ano, percentual inferior à média praticada pelo mercado para esse tipo de operação.
O regulamento não restringe o acesso aos veículos importados nem exige fabricação nacional. Dessa forma, podem ser financiados tanto automóveis importados prontos quanto modelos montados no Brasil a partir de kits CKD (completamente desmontados) e SKD (semidesmontados).
Embora os recursos sejam disponibilizados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, a concessão do crédito depende da análise das instituições financeiras credenciadas, que poderão aprovar ou rejeitar os pedidos conforme critérios como renda, histórico financeiro e capacidade de pagamento.
Estoques elevados favorecem fabricantes chinesas
O lançamento do programa, anunciado em maio e com operações iniciadas em junho, ocorreu em um momento considerado estratégico para as montadoras chinesas.
Antes da elevação das tarifas de importação para veículos prontos, empresas como BYD, GWM e Geely ampliaram os embarques para o Brasil, antecipando a entrada de veículos sujeitos às alíquotas anteriores.
Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores apontam que o estoque de veículos importados alcançou 329 mil unidades em maio, sendo a maior parte composta por automóveis de origem chinesa.
Setor cobra incentivo maior à produção nacional
A Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores estima que o Move Brasil poderá impulsionar a venda de aproximadamente 200 mil veículos em 2026.
Apesar da expectativa positiva para o mercado, representantes da indústria automobilística defendem que políticas públicas priorizem a produção nacional e evitem criar vantagens competitivas para veículos importados.
A discussão ganhou força após a Câmara de Comércio Exterior prorrogar a alíquota zero para importação de kits CKD e SKD, medida que beneficia fabricantes em fase de instalação no Brasil, como a BYD, que constrói uma fábrica em Camaçari, na Bahia.
Segundo dados do setor, a montadora chinesa passou de 260 veículos vendidos em 2022 para 21.704 emplacamentos em maio de 2026, alcançando participação de 10,11% no mercado brasileiro e tornando-se a quarta maior marca em vendas no país. No mesmo período, veículos elétricos e híbridos passaram a representar 19,5% dos emplacamentos de automóveis leves.
Interesse pelo programa cresce nas buscas
O lançamento do Move Brasil também provocou aumento nas pesquisas realizadas na internet.
De acordo com o Google Trends, o termo “Move Brasil” atingiu o pico de interesse em 19 de junho, data em que o programa entrou oficialmente em operação.
Na mesma data, as buscas por “BYD” registraram índice de 73 pontos, enquanto os termos “carro elétrico” e “financiamento de veículo” alcançaram 9 e 1 ponto, respectivamente, indicando que o lançamento do programa despertou maior interesse dos consumidores do que pesquisas relacionadas aos veículos ou ao crédito automotivo.