A 20 km de Natal, no município de Extremoz, montanhas de areia branca ultrapassam 20 metros de altura e se redesenham todos os dias pela força dos ventos alísios. Genipabu, apelidada de Saara do Nordeste, mistura deserto, lagoa de água doce e mar aberto em uma paisagem que já foi cenário de novelas assistidas por milhões de brasileiros. O nome vem do tupi jenipab-u, que significa “rio dos jenipapos”, conforme registrou o historiador Luís da Câmara Cascudo, maior referência na toponímia potiguar.
A areia onde holandeses desembarcaram e novelas simularam o Saara
Antes dos turistas, vieram os guerreiros. Em 1631, tropas holandesas desembarcaram na praia de Genipabu na tentativa de conquistar a capitania do Rio Grande. Os índios potiguares que habitavam a foz do rio Baquipe (atual Ceará-Mirim) resistiram por décadas às investidas europeias. Séculos depois, a mesma areia recebeu câmeras de televisão.
As dunas ganharam projeção nacional como cenário da TV Globo. Em Cambalacho (1986), Genipabu apareceu pela primeira vez em horário nobre. Depois vieram Tieta (1989) e O Clone (2001), quando a areia potiguar simulou o deserto do Marrocos para milhões de telespectadores. Flor do Caribe (2013) fechou o ciclo de novelas que transformaram o litoral norte de Natal em paisagem reconhecida em todo o Brasil. Em 2023, a praia foi eleita a 8ª mais bonita da América do Sul pelo Traveller’s Choice do TripAdvisor.
Dunas que nunca são iguais e uma pergunta que virou bordão
Os ventos constantes remodelam as montanhas de areia toda semana. Nenhuma visita é igual à anterior. As dunas são divididas em fixas (com vegetação e cajueiros) e móveis (areia pura, relevo instável). Antes de arrancar o buggy, o bugueiro faz a pergunta que virou bordão nacional: “com emoção ou sem emoção?”.
A opção “com emoção” inclui manobras nas cristas das dunas, descidas íngremes nos chamados paredões e o vento batendo no rosto a toda velocidade. A “sem emoção” segue o mesmo roteiro com paradas para fotos e ritmo contemplativo. Bugueiros credenciados pela Secretaria de Turismo do RN partem da própria praia ou buscam turistas nos hotéis de Ponta Negra. O governo do estado exige contratação exclusiva de profissionais com selo “Permissionário” para garantir a segurança nas áreas do parque ecológico.
Genipabu é o “Saara do Rio Grande do Norte”. O vídeo é do canal Arruda Hobbies, com 105 mil inscritos, destacando os dromedários, os passeios de buggy e a lagoa de água doce entre as dunas.
Lagoas, esquibunda e dromedários no meio da areia
O percurso de buggy inclui paradas que combinam adrenalina e descanso entre as dunas.
- Lagoa de Genipabu: espelho de água doce encaixado entre as dunas, com tom azul-turquesa. O banho é restrito por se tratar de área de proteção ambiental, mas a contemplação e as mesas dentro d’água já valem a parada.
- Esquibunda: o turista senta em uma prancha de madeira e desce a duna em alta velocidade até mergulhar na lagoa. Diversão clássica para todas as idades.
- Aerobunda: tirolesa que parte do alto da duna e termina com pouso suave na água.
- Passeio de dromedário: percurso de cerca de 20 minutos pelas dunas, com turbante para as fotos. Os animais foram introduzidos na década de 1990 e se adaptaram ao clima. A atividade reforça a atmosfera de deserto em pleno trópico.
- Lagoa de Pitangui: a 6 km, com caiaques, pedalinhos e redes sobre a água. Extensão natural do roteiro de buggy.
Uma área protegida de quase 2 mil hectares entre dunas e manguezal
Para proteger o patrimônio natural, o governo estadual criou a Área de Proteção Ambiental Jenipabu em 1995, por meio do Decreto Estadual nº 12.620. A unidade de conservação, gerida pelo IDEMA, abrange 1.881 hectares entre Extremoz e Natal, preservando dunas, Mata Atlântica, manguezal e lagoas. O controle de acesso e o credenciamento de bugueiros são parte do modelo que busca equilibrar turismo e preservação.
Extremoz vive uma transformação acelerada. Segundo o Censo 2022 do IBGE, a população saltou de 24.569 para 61.635 habitantes em 12 anos, um crescimento de 150,6%, o terceiro maior do país no período. A proximidade com Natal pela Ponte Newton Navarro e o custo de vida mais baixo atraem novos moradores sem que as dunas percam espaço.
Quando ir a Genipabu e como é o clima?
Natal registra cerca de 300 dias de sol por ano, e Genipabu aproveita esse privilégio. A temperatura média anual gira em torno de 26°C. A estação chuvosa se concentra entre abril e julho, quando os passeios de buggy podem ser interrompidos por pancadas.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo (Natal). Condições podem variar.
Como chegar ao Saara do Nordeste
Genipabu fica a 20 km de Natal. O acesso mais cênico é pela Ponte Newton Navarro, saindo da Zona Norte da capital, com vista para o Rio Potengi. Do Aeroporto de Natal (em São Gonçalo do Amarante) são 30 a 40 minutos de carro. A maioria dos turistas se hospeda em Ponta Negra e contrata buggy credenciado que busca no hotel. Carro comum não deve entrar nas dunas: o risco de atolar é alto. Leve dinheiro em espécie, porque o sinal de internet oscila na areia.
Suba a duna que o vento redesenha amanhã
Genipabu é o deserto que fica a 20 minutos de uma capital, onde holandeses tentaram desembarcar em 1631, onde a Globo filmou o Marrocos sem sair do Rio Grande do Norte e onde o bugueiro pergunta se você quer emoção antes de descer um paredão de areia. As dunas mudam de forma toda semana, a lagoa muda de cor conforme o sol e o dromedário muda o cenário de praia para Saara em uma única foto.
Você precisa ouvir “com emoção ou sem emoção?”, escolher a primeira opção, sentir o vento na cara descendo a duna e entender por que esse pedaço de areia a 20 km de Natal virou o deserto mais fotografado do Brasil.
