O vento gelado dos Campos de Cima da Serra corta o rosto antes de se chegar à borda. Lá embaixo, 720 metros de rocha cortada a prumo desaparecem na neblina. Cambará do Sul, no Rio Grande do Sul, é uma cidade de 6.400 habitantes que esconde abismos de quase mil metros de profundidade, dois parques nacionais e o maior conjunto de cânions da América do Sul, reconhecido pela UNESCO como parte do Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul.
Pedra afiada é o que o nome diz
Itaimbezinho vem do tupi-guarani: ita (pedra) e aimbé (afiada). Os tropeiros que cruzavam a serra no século XIX chamavam os desfiladeiros de “aparados”, porque pareciam cortados a faca. O próprio nome Cambará, também tupi, significa “folha de casca rugosa”, em referência a uma árvore medicinal que ainda pode ser vista na praça central, em frente à Igreja Matriz São José.
Os cânions nasceram de sucessivos derrames de lava basáltica que formaram o Planalto Meridional há cerca de 130 milhões de anos. A separação entre América do Sul e África rachou esse imenso bloco de rocha. Rios e chuvas completaram o trabalho, esculpindo gargantas verticais que hoje dividem os estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina: a parte de cima fica no lado gaúcho, a de baixo, no catarinense.
Os dois gigantes dos parques nacionais
Dois parques administrados pelo ICMBio e geridos pela concessionária Urbia Cânions Verdes concentram as atrações principais.
- Cânion Itaimbezinho (Parque Nacional de Aparados da Serra, criado em 1959): 5,8 km de extensão e até 720 metros de profundidade. A Trilha do Vértice (1,5 km, nível fácil) leva às cachoeiras das Andorinhas e Véu de Noiva. A Trilha do Cotovelo (6 km, plana) revela 75% dos paredões. Não abre às segundas.
- Cânion Fortaleza (Parque Nacional da Serra Geral, criado em 1992): 7,5 km de muralha verde com até 900 metros de profundidade, o maior do Brasil. A Trilha da Pedra do Segredo (3 km) passa pela Cachoeira do Tigre Preto e por uma rocha que se equilibra sobre uma base mínima. Em dias limpos, o mirante revela o litoral de Torres. Não abre às terças.
O documentário “ALÉM DOS CÂNIONS de CAMBARÁ DO SUL”, do canal Diogo Elzinga, oferece uma visão profunda sobre a história, a cultura e os segredos dessa cidade nos Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul:
Além dos dois cânions mais famosos
A região tem 36 desfiladeiros, a maioria pouco conhecida. Alguns exigem trilhas longas ou acesso restrito, mas outros são acessíveis e surpreendentes.
- Trilha do Rio do Boi: 8 km por dentro do Itaimbezinho, com travessias de rio e piscinas naturais. Acesso por Praia Grande (SC), obrigatório com guia.
- Cachoeira dos Venâncios: quatro quedas em sequência formadas pelo Rio Camisas, a 23 km do centro. Águas cristalinas, boas para banho no verão.
- Voo de balão: sobrevoo dos campos e das bordas dos cânions ao amanhecer. Virou marca registrada de Cambará do Sul.
- Tirolesa do Cânion Fortaleza: inaugurada em 2023, com 720 metros de percurso sobre o abismo. Considerada a mais alta das Américas.
- Cavalgada na borda: passeios de 1 a 3 horas por campos nativos, com vista para paredões dos cânions Cambajuva e Pinheirinho.

O que comer na Terra dos Cânions?
A gastronomia segue o ritmo do frio e da cultura campeira. O pinhão na chapa, fruto da araucária assado no fogão a lenha, é servido como entrada em quase todos os restaurantes. O carreteiro de charque, arroz com carne seca desfiada, carrega a herança dos tropeiros que cruzavam os campos de altitude.
A truta, criada nas águas geladas dos rios da serra, é o prato mais emblemático e aparece grelhada ou com molhos finos. O mel de Cambará é presença certa na mesa e nos souvenirs: a apicultura é uma das principais atividades econômicas do município. Fondues e café colonial completam a oferta para noites geladas.
Quando visitar os cânions?
A neblina pode cobrir a vista em minutos, especialmente no inverno. O verão oferece mais dias abertos, mas o frio da borda surpreende em qualquer estação. Leve agasalho mesmo em janeiro.
Temperaturas aproximadas. Consulte a previsão atualizada no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar à borda dos cânions?
Cambará do Sul fica a 185 km de Porto Alegre pela RS-020 (Rota do Sol), cerca de 3 horas de carro. De Gramado, são 113 km. Para quem vem de Santa Catarina, o acesso é pela Serra do Faxinal, a partir de Praia Grande. As estradas até os cânions incluem trechos de terra, e carro próprio ou alugado é o meio mais prático. Os aeroportos mais próximos são os de Caxias do Sul (137 km) e Porto Alegre (192 km).
A cidade onde se é pequeno diante da rocha
Cambará do Sul concentra, em pouco mais de 6 mil habitantes, paisagens que levaram milhões de anos para se formar. Da praça com a árvore cambará aos paredões do Itaimbezinho, tudo fica a menos de meia hora. Os campos de altitude, as araucárias, o silêncio e o vento gelado na borda criam uma experiência que nenhum cânion do mundo entrega com tanta proximidade.
Você precisa chegar à borda do Itaimbezinho, olhar para baixo e ficar em silêncio. Depois, comer pinhão no fogão a lenha e entender por que quem visita Cambará do Sul volta diferente.