Sobre um rochedo às margens do Rio São Francisco, a 160 km de Maceió, a cidade brasileira mais antiga de Alagoas empilha quatro séculos de história em poucas quadras de paralelepípedo. Penedo, a Atenas Alagoana, guarda mais de 60 edificações coloniais tombadas pelo IPHAN, oito igrejas barrocas no centro histórico, um teatro de 1884 e um museu no casarão onde o imperador dormiu. Em outubro de 2023, a UNESCO incluiu Penedo na Rede de Cidades Criativas na categoria Cinema.
A cidade que ensinava latim e escondia escravos atrás do altar
O apelido nasceu no século XIX, quando Penedo se destacava pela vida intelectual rara para o interior nordestino. O Convento dos Franciscanos oferecia aulas de filosofia, latim e francês, formando uma elite letrada que influenciou a cultura de Alagoas inteira. Poetas, escritores e músicos circulavam pelos salões dos casarões coloniais. O Theatro Sete de Setembro, inaugurado em 1884, foi o primeiro teatro da província e mantém na fachada quatro estátuas de louça representando as deusas das artes.
Uma das histórias mais marcantes vive dentro da Igreja de Nossa Senhora da Corrente, joia do rococó construída pela família abolicionista Lemos entre 1764 e 1790. O altar-mor é folheado a ouro, os azulejos vieram de Portugal e o piso, da Inglaterra. Ao lado do altar, um esconderijo na parede abrigava escravos fugidos até que cartas de alforria fossem providenciadas. O historiador Germain Bazin, ex-diretor do Museu do Louvre, considerou o templo um dos mais belos do Brasil.
Dom Pedro II dormiu aqui e sugeriu mudar a capital
Em outubro de 1859, Dom Pedro II desembarcou em Penedo durante uma expedição pelo São Francisco. O imperador se hospedou num casarão do século XVIII e, segundo o imaginário popular, teria sugerido que ali deveria ser a capital da província. O casarão funciona hoje como o Museu do Paço Imperial, com mobiliário, louças e documentos do período.
A fundação de Penedo remonta ao século XVI, quando portugueses estabeleceram um povoado estratégico às margens do rio para controlar a navegação e frear invasores. Em 1637, holandeses ocuparam a cidade e ergueram o Forte Maurício de Nassau sobre a rocheira. A ocupação durou cerca de uma década e deixou marcas na arquitetura e na memória local. O reconhecimento como Patrimônio Histórico Nacional veio em 1996.
Penedo é conhecida como a “Atenas Alagoana”. O vídeo do canal Coisas do Mundo, com 146 mil inscritos, apresenta o centro histórico preservado, a relação com o Rio São Francisco e marcos como a Igreja de Santa Maria dos Anjos e o Teatro 7 de Setembro.
Oito igrejas e ouro misturado com óleo de baleia
O circuito das igrejas é o coração do turismo em Penedo. São oito templos no centro histórico, todos acessíveis a pé.
- Igreja de Nossa Senhora da Corrente (1764): altar-mor folheado a ouro, azulejos portugueses, piso inglês e esconderijo abolicionista na parede lateral.
- Convento e Igreja Santa Maria dos Anjos: complexo franciscano do século XVII tombado pelo IPHAN desde 1941. Abriga pinturas ilusionistas no forro e talha barroca com ouro em pó misturado a óleo de baleia e clara de ovo.
- Catedral de Nossa Senhora do Rosário: construção iniciada em 1690, fachada atual de 1815, com vitrais coloridos e localização na Praça Barão de Penedo.
- Theatro Sete de Setembro (1884): primeiro teatro de Alagoas, com estátuas de louça na fachada. Ainda recebe espetáculos e eventos culturais.
- Museu do Paço Imperial: acervo imperial com objetos, porcelanas e mobiliário da visita de Dom Pedro II.
O Velho Chico e os Lençóis Alagoanos na foz
O Rio São Francisco é o protagonista da vida em Penedo. Passeios de barco ou catamarã partem do porto e navegam cerca de 30 km até a foz, onde o rio encontra o Oceano Atlântico. O destino final são os chamados Lençóis Alagoanos, formação de dunas e lagoas na vizinha Piaçabuçu (28 km). No caminho, manguezais, ilhas fluviais e povoados ribeirinhos compõem o cenário.
O pôr do sol visto da Rocheira, formação rochosa natural à beira do rio, é considerado um dos mais bonitos de Alagoas. A Festa de Bom Jesus dos Navegantes, em janeiro, colore as águas do Velho Chico com centenas de barcos numa procissão fluvial que reúne milhares de fiéis. É uma das maiores manifestações religiosas ribeirinhas do país.
Peixada, sururu e pilombeta frita no cais
A gastronomia penedense é construída sobre o que sai do rio. Peixe fresco, sururu e camarão dominam os cardápios dos restaurantes com vista para as águas. A peixada à Penedo (peixe cozido em caldo temperado com pirão) é o prato mais pedido. O sururu com pirão, molusco cozido no leite de coco com farinha de mandioca, é herança alagoana pura. A pilombeta frita, peixe pequeno empanado e crocante servido com limão, funciona como petisco clássico nas beiradas do cais. Macaxeira com carne de sol e manteiga de garrafa completam a mesa nordestina.
Quando ir a Penedo e como é o clima?
O clima é tropical quente o ano inteiro, com temperatura média entre 22°C e 32°C. O período mais seco (agosto a janeiro) é o ideal para passeios de barco e exploração do centro histórico.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Atenas Alagoana
Penedo fica a 160 km de Maceió pela BR-101 Sul, cerca de 2h30 de carro. De Aracaju, são 120 km até Neópolis (Sergipe), onde uma balsa cruza o São Francisco até o porto da cidade, já com vista do casario colonial. Os aeroportos mais próximos são os de Maceió (160 km) e Aracaju (120 km). Todo o centro histórico pode ser percorrido a pé em uma manhã. Piaçabuçu (28 km) é o ponto de partida para a foz do São Francisco.
Suba o rochedo onde o imperador quis mudar a capital
Penedo é a cidade onde um convento ensinava latim no sertão, onde o altar mais bonito do Brasil (segundo um diretor do Louvre) escondia escravos fugidos atrás da parede, onde Dom Pedro II dormiu e sugeriu que ali deveria ser a capital, e onde a UNESCO reconheceu em 2023 que o cinema e a cultura merecem selo de cidade criativa. Tudo isso sobre um rochedo à beira do Velho Chico, com 60 edificações tombadas e um pôr do sol que pinta o rio de laranja.
Você precisa chegar a Penedo pela balsa do São Francisco, ver o casario colonial surgir do outro lado da água e entender por que chamam essa cidade de 60 mil habitantes de Atenas.
