No extremo norte do Brasil, uma montanha de topo plano emerge acima das nuvens e desafia qualquer noção de paisagem terrestre. O Monte Roraima é um tepui, palavra do povo Pemón que significa “casa dos deuses”, e guarda no platô a 2.810 metros de altitude um ecossistema que não existe em nenhum outro lugar do planeta.
Uma ilha de pedra formada antes dos dinossauros
As rochas do Monte Roraima fazem parte do Escudo das Guianas e têm cerca de 2 bilhões de anos, o que as coloca entre as formações sedimentares mais antigas ainda expostas na superfície da Terra. O arenito quartzítico que compõe o platô, chamado de Formação Roraima, é 98% sílica. Ao longo de milhões de anos, a erosão desgastou as áreas mais frágeis ao redor e isolou grandes blocos rochosos em formato de mesa.
Esse isolamento geológico criou o que cientistas chamam de “ilhas no céu”. No topo, a vida evoluiu de forma independente da floresta tropical que se espalha aos pés dos paredões. Cerca de 35% das espécies de plantas encontradas no cume são endêmicas. Em 1884, o explorador britânico Everard im Thurn liderou a primeira expedição ao topo, e os relatos da viagem inspiraram Arthur Conan Doyle a escrever “O Mundo Perdido”, em 1912.
O que espera o visitante no topo do tepui?
O platô tem cerca de 31 km² e surpreende pela variedade de formações. Rochas negras esculpidas pelo vento e pela chuva assumem formas que lembram animais e objetos, batizadas informalmente pelos guias. As atrações se distribuem ao longo de caminhadas no cume, sempre acompanhadas por guias indígenas.
- Vale dos Cristais: tapete de cristais de quartzo brancos e rosados que cobrem o solo por centenas de metros. É proibido retirar qualquer pedra.
- Marco da Tríplice Fronteira: ponto geográfico onde se encontram Brasil, Venezuela e Guiana. Recebeu em 2025 placas informativas do ICMBio.
- El Fosso: cavidade circular com poço de águas geladas, formada por milhares de anos de erosão. O acesso exige descer por uma gruta ou saltar quando o nível está alto.
- Jacuzzis: piscinas naturais entre rochas, com fundo de cristais e água transparente. Ideal para banho rápido após horas de caminhada.
- La Ventana: abertura natural na rocha que emoldura a vista do tepui vizinho Kukenán, separado por um abismo vertiginoso.
O Monte Roraima reserva paisagens que parecem de outro planeta. O vídeo é do canal Rolê Família, referência com 1,5 milhão de inscritos, e detalha uma expedição de 110 km, revelando jacuzzis naturais, o Abismo e o icônico Vale dos Cristais.
Plantas carnívoras e rãs que só existem aqui
O solo pobre em nutrientes do topo forçou a flora a se adaptar de formas incomuns. Plantas carnívoras capturam insetos para suprir o que a terra não oferece. Orquídeas minúsculas brotam entre fendas de arenito. Musgos e líquens cobrem as paredes das cavernas usadas como abrigo pelos grupos de trekking.
A fauna é igualmente singular. Pequenas rãs pretas, endêmicas do Roraima, vivem entre as pedras do platô. Répteis e anfíbios seguiram trajetórias evolutivas próprias ao longo de milhões de anos de isolamento. Os guácharos, aves noturnas que habitam cavernas, completam o cenário de um ecossistema que parece pertencer a outro planeta.
Quantos dias dura o trekking do Monte Roraima?
A expedição completa leva de 7 a 9 dias e soma aproximadamente 95 km de caminhada entre ida e volta. O ponto de partida é a comunidade indígena de Paraitepuy, em território venezuelano. É obrigatório contratar agência com guias pemón credenciados, carregadores e cozinheiros.
O primeiro dia cobre 14 km de savana até o Acampamento Rio Tek. No segundo, são 10 km com travessia de dois rios até a base do monte. A subida pela rampa, uma fenda natural nos paredões, leva cerca de 5 horas. No topo, os grupos dormem em cavernas chamadas de “hotéis”, abrigos naturais sob formações rochosas. O custo médio varia entre R$ 4.500 e R$ 7.000 por pessoa, incluindo transporte local, alimentação, equipamentos e taxas.
Quando ir e o que esperar do clima na montanha?
O Monte Roraima fica na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. A cidade-base para a expedição é Boa Vista, capital de Roraima. O clima na base é tropical, mas no topo as condições mudam radicalmente.
Temperaturas do topo aproximadas. Na base (Boa Vista), o clima é tropical com médias entre 24°C e 36°C. Consulte o Climatempo antes de viajar.
Como chegar ao Monte Roraima saindo de Boa Vista?
O trajeto começa no aeroporto de Boa Vista, que recebe voos de Manaus e Brasília. De lá, são 213 km pela BR-174 até Pacaraima, na fronteira com a Venezuela. Após os trâmites migratórios, veículos 4×4 levam os grupos até Paraitepuy em cerca de 1h30. A documentação exigida inclui RG com expedição de até 10 anos ou passaporte válido. Autorização prévia deve ser solicitada ao Parque Nacional do Monte Roraima (ICMBio) e ao Inparques venezuelano.
Suba ao topo da casa dos deuses
O Monte Roraima é daqueles destinos que reorganizam a perspectiva de quem chega. Caminhar sobre rochas de 2 bilhões de anos, dormir em cavernas naturais e pisar em três países no mesmo platô compõem uma experiência que vai além do trekking.
Se a montanha já chamou a sua atenção, aceite o convite: o Roraima recompensa cada quilômetro de esforço com paisagens que parecem ter sido desenhadas para outro planeta.