Paredes de igreja com marcas de tiro, salinas que branqueiam o horizonte e forró nas ruas por mais de 30 noites seguidas. Mossoró, no sertão do Rio Grande do Norte, acumula três pioneirismos raros em um só município e transforma cada um deles em espetáculo.
Três revoluções em menos de 50 anos
Em 30 de setembro de 1883, a Sociedade Libertadora Mossoroense proclamou a liberdade de todos os escravizados da cidade, cinco anos antes da Lei Áurea. O lema do grupo cabia em uma frase: “Todos os meios são lícitos a fim de que Mossoró liberte os seus escravos”. A data virou o maior feriado cívico local e é celebrada até hoje com cortejo e espetáculo teatral.
Em 1927, o bando de Lampião tentou invadir a cidade. O prefeito Rodolfo Fernandes recusou pagar o resgate exigido e a população resistiu com armas próprias, sem reforço externo. Em cerca de uma hora, os cangaceiros recuaram. Mossoró foi a única cidade nordestina a conseguir esse feito. As paredes da Igreja de São Vicente, usada como trincheira, ainda guardam marcas dos tiros. No ano seguinte, a professora Celina Guimarães Viana se alistou e votou na cidade, registrando o que o Tribunal Superior Eleitoral reconhece como o primeiro voto feminino do Brasil.
O que visitar no Corredor Cultural e arredores?
A Avenida Rio Branco concentra a maior parte dos atrativos em um circuito a pé. Mossoró não é destino de praia nem de serra, é destino de história viva.
- Memorial da Resistência: museu a céu aberto com painéis, fotos, cartas e mapas que reconstituem a batalha contra Lampião. Entrada gratuita.
- Estação das Artes Elizeu Ventania: antiga estação ferroviária transformada em centro cultural, palco principal do Mossoró Cidade Junina e do Auto da Liberdade.
- Teatro Municipal Dix-Huit Rosado: o maior do Rio Grande do Norte, com fachada inspirada em teatros europeus e programação o ano inteiro.
- Museu Histórico Lauro da Escóssia: instalado na antiga cadeia pública, guarda o título de eleitor de Celina Guimarães e registros fotográficos do cangaço.
- Catedral de Santa Luzia: construída no século XVIII, abriga o marco zero da cidade e é palco do Oratório de Santa Luzia em dezembro.
- Lajedo de Soledade: a 60 km de Mossoró, sítio arqueológico com cavernas e pinturas rupestres de aproximadamente 5 mil anos.
O vídeo é do canal Cidades & Cia, que apresenta o desenvolvimento dos municípios brasileiros, e detalha a história de liberdade, a infraestrutura moderna e a vibrante cultura junina de Mossoró:
Festas que encenam revoluções a céu aberto
O Mossoró Cidade Junina ocupa a Estação das Artes e o centro por mais de 30 dias em junho. São shows de forró, disputas de quadrilhas e mais de 30 projetos culturais espalhados pelo Corredor Cultural. O momento mais aguardado é o espetáculo Chuva de Bala no País de Mossoró, encenação ao ar livre com centenas de atores locais que recria a resistência ao bando de Lampião, com efeitos pirotécnicos.
Em setembro, a Festa da Liberdade celebra os quatro marcos libertários da cidade: o Motim das Mulheres de 1875, a abolição de 1883, a resistência de 1927 e o voto feminino de 1928. O Auto da Liberdade, espetáculo teatral ao ar livre, e o Cortejo da Liberdade encerram as comemorações. Em dezembro, o Oratório de Santa Luzia conta a história da mártir padroeira com música e teatro.
Que sabores do sertão experimentar na cidade?
A mesa mossoroense reflete o semiárido com tempero forte e fartura. Mossoró é também a maior produtora de sal marinho do Brasil, dado que explica as salinas visíveis no horizonte da cidade.
- Carne de sol com macaxeira: o clássico potiguar, servido na brasa ou desfiado com nata.
- Bode guisado: prato emblemático do sertão, preparado com temperos frescos e servido com arroz da terra.
- Panelada: miúdos cozidos com temperos fortes, presença obrigatória nas festividades.
- Paçoca de pilão: carne de sol socada com farinha e feijão verde.
- Cuscuz de arroz com carne de sol: café da manhã que sustenta o dia inteiro.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
Mossoró tem clima semiárido, com temperaturas altas o ano inteiro e período chuvoso concentrado entre fevereiro e maio. Junho é o auge turístico, unindo clima seco e o fervor cultural das festas juninas.
Temperaturas aproximadas. Consulte a previsão atualizada no Climatempo.
Como chegar à Terra da Liberdade?
Mossoró fica a 280 km de Natal e a 245 km de Fortaleza, ambas ligadas pela BR-304. O trajeto de carro leva cerca de 3h30 a partir de qualquer uma das capitais. O Aeroporto Dix-Sept Rosado, a 3 km do centro, recebe voos regionais. Ônibus intermunicipais partem diariamente das rodoviárias de Natal e Fortaleza. Para quem quer incluir praia no roteiro, Tibau fica a 40 km e Areia Branca a 80 km.
Ouça o forró e sinta o sertão que faz história
Mossoró é rara entre os destinos do interior nordestino. A cidade que libertou escravizados antes da lei, expulsou cangaceiros sem ajuda externa e registrou o primeiro voto feminino do país transformou cada um desses feitos em festa, museu e espetáculo. É história que se vive com os pés no chão de terra e forró no ouvido.
Você precisa chegar a Mossoró em junho, assistir ao Chuva de Bala a céu aberto e entender por que a Terra da Liberdade faz questão de lembrar, todo ano, que nunca se curvou.