No século XVI, escritores a chamavam de “pequena Lisboa”. Os engenhos de cana fizeram de Olinda a cidade mais opulenta do Brasil colonial, até que os holandeses retiraram os materiais nobres das edificações e atearam fogo em tudo, em 1631. A capital pernambucana mudou para o Recife, e Olinda ficou com as cinzas, o traçado medieval e a teimosia de se reconstruir. Em 1982, a UNESCO reconheceu o resultado: Patrimônio Cultural da Humanidade.
Uma exclamação que virou nome de cidade
Conta a tradição que Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco, avistou as colinas verdejantes e exclamou: “Ó linda situação para se fundar uma vila!” A frase teria batizado Olinda, fundada em 1535. Historiadores como Varnhagen consideram a etimologia improvável e apontam outras origens possíveis, mas a lenda já faz parte da cidade tanto quanto suas ladeiras.
O que é fato: Olinda foi ponto de partida para o povoamento de Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Maranhão. Após a expulsão dos holandeses em 1654, a reconstrução levou décadas. Quase nada da arquitetura quinhentista sobreviveu ao fogo, mas o traçado irregular, adaptado às curvas do terreno, permaneceu intacto. O conjunto tombado pelo IPHAN desde 1968 abrange 1,2 km² e cerca de 1.500 imóveis.
O que espera o visitante nas ladeiras?
O centro histórico se percorre a pé. As atrações se revelam a cada esquina, entre calçamento de pedra e fachadas pintadas em cores vivas.
- Alto da Sé: mirante mais famoso de Olinda, com vista panorâmica do Recife e do litoral. Abriga a Catedral da Sé (século XVI), barracas de tapioca e o Mercado de Artesanato.
- Convento de São Francisco: primeiro convento franciscano do Brasil (1585), com azulejos portugueses e capela dourada.
- Basílica e Mosteiro de São Bento: altar-mor em talha dourada considerado um dos mais ricos do barroco brasileiro. Missas com canto gregoriano aos domingos.
- Museu do Mamulengo: primeiro museu da América Latina dedicado a bonecos populares, com acervo de mamulengos pernambucanos.
- Museu de Arte Sacra de Pernambuco: funciona no antigo Palácio Episcopal, com acervo que cruza quatro séculos de arte religiosa.
Olinda preserva o charme das cidades coloniais com suas fachadas coloridas e igrejas seculares. O vídeo é do canal Tesouros do Brasil, que conta com mais de 316 mil inscritos, e apresenta um roteiro definitivo pelo sítio histórico, incluindo a Catedral da Sé, o Mosteiro de São Bento e dicas de onde comer e se hospedar:
Bonecos de 4 metros e frevo Patrimônio da Humanidade
O carnaval de Olinda é de rua, gratuito e movido por mais de 500 agremiações oficiais. Frevo, maracatu, afoxés e troças sobem e descem as ladeiras sem cordas nem camarotes. O frevo foi reconhecido como Patrimônio Imaterial do Brasil pelo IPHAN em 2007 e como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2012.
A marca registrada são os bonecos gigantes, que chegam a 4 metros de altura e pesam cerca de 20 kg. A tradição começou em 1932 com a criação do Homem da Meia-Noite, inspirado em um homem bonito que caminhava pelas ruas à noite. O boneco original fica confinado o ano inteiro e só sai à meia-noite do sábado de carnaval. Fora desse horário, quem aparece nos eventos é um sósia.
Tapioca no mirante e galinha à cabidela nos casarões
A gastronomia reflete a tradição canavieira e o tempero pernambucano. Restaurantes instalados em casarões coloniais servem pratos fartos com vista para o mar.
- Tapioca no Alto da Sé: preparada na hora, com recheios que vão de queijo coalho a carne de sol. Acompanhamento obrigatório do pôr do sol.
- Galinha à cabidela: cozida no próprio sangue com temperos regionais, prato de raiz servido em restaurantes do centro histórico.
- Bolo de rolo: camadas finas de massa com goiabada, presente que não pode faltar na mala de quem visita Pernambuco.
Nos fins de semana, ateliês de cerâmica e xilogravura abrem as portas para visitantes. A tradição artesanal de Olinda é tão forte quanto sua arquitetura e alimenta uma rede de artistas que vive e produz nas ladeiras o ano inteiro.
Quando subir as ladeiras
O clima tropical quente garante sol o ano todo. As chuvas se concentram entre março e agosto. O carnaval (fevereiro ou março) é a alta temporada absoluta.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Cidade Alta
Olinda fica a 7 km do centro do Recife e a 18 km do Aeroporto Internacional dos Guararapes, que recebe voos de todas as capitais brasileiras. O trajeto de táxi ou aplicativo leva cerca de 30 minutos. Ônibus municipais conectam as duas cidades com frequência ao longo do dia. Todo o centro histórico se percorre a pé, e boa parte das ruas é fechada para veículos.
Uma cidade que renasce a cada ladeira
Olinda carrega no nome a exclamação de quem a viu pela primeira vez e no casario a memória de quem a reconstruiu depois do fogo holandês. As ladeiras de pedra, os bonecos gigantes, o frevo nas ruas e o cheiro de tapioca no Alto da Sé formam uma experiência que nenhuma outra cidade brasileira consegue reproduzir.
Você precisa subir a ladeira da Sé no fim da tarde, olhar o Recife inteiro do mirante e entender por que Olinda sobreviveu ao fogo e à perda da capital sem nunca perder a cor.