O catamarã encosta no cais e o primeiro passo é atravessar um portal de pedra do século XVII. Do outro lado, uma ilha no Nordeste com ruas de areia, carrinhos de mão no lugar de automóveis e o som do mar em todas as direções. Morro de São Paulo, na Ilha de Tinharé, é um vilarejo na Costa do Dendê baiana onde a história colonial e o turismo de praia se encontram sem que nenhum dos dois precise dar espaço ao outro.
Piratas, holandeses e uma fortaleza feita com óleo de baleia
A vila foi fundada entre 1535 e 1536 por Francisco Romero, que batizou o morro alto da ilha com o nome de São Paulo. A posição estratégica protegia a chamada “barra falsa” da Baía de Todos os Santos, rota de escoamento de mercadorias até Salvador. Isso atraiu piratas, corsários e esquadras holandesas, como a do almirante Piet Heyn, que saqueou a ilha em 1628.
Dois anos depois, o governador-geral Diogo Luiz de Oliveira ordenou a construção da Fortaleza do Tapirandu, erguida com pedras e óleo de baleia. O complexo se estende por 678 metros de muralhas e ruínas, tombado pelo IPHAN. Hoje, moradores e turistas se reúnem ali ao fim da tarde para assistir ao pôr do sol enquanto golfinhos saltam nas águas em frente.
Cinco praias numeradas para todos os perfis
As praias de Morro de São Paulo são chamadas por números, da Primeira à Quinta. Cada uma tem personalidade própria, e é possível ir a pé entre elas pela faixa de areia.
- Primeira Praia: a menor e mais próxima do centrinho. É onde termina a tirolesa que desce do Farol, com 340 metros de percurso e 57 metros de altura.
- Segunda Praia: o coração do agito. Barracas, restaurantes, luaus à noite e piscinas naturais na maré baixa.
- Terceira Praia: ponto de partida dos passeios de lancha. Mar calmo, boa para famílias e casais.
- Quarta Praia: longa e tranquila, com recifes, coqueiros e bancos de areia que aparecem na maré baixa.
- Quinta Praia (Praia do Encanto): a mais reservada e silenciosa, cercada de mata nativa.
Morro de São Paulo é um paraíso baiano sem carros e com praias de águas mornas. O vídeo é do canal Vamos Fugir Blog, que conta com mais de 71 mil inscritos, e apresenta as cinco praias principais, a famosa tirolesa e o pôr do sol inesquecível no Forte:
Volta à Ilha e outros passeios que valem o dia
O passeio mais procurado é a Volta à Ilha de Tinharé. A lancha sai da Terceira Praia e percorre as piscinas naturais de Garapuá e Moreré, com paradas para mergulho, almoço na Ilha de Boipeba e visita ao Convento de Santo Antônio em Cairu, considerada a segunda cidade mais antiga do Brasil.
Outros programas incluem o passeio de quadriciclo até Garapuá (12 km de trilha pela mata), o banho de argila na praia da Gamboa e a observação de baleias jubarte entre julho e outubro, com apoio do Instituto Baleia Jubarte.
O que comer na ilha sem carros?
A gastronomia do Morro mistura o tempero baiano com influências de chefs estrangeiros que se instalaram na ilha. A Segunda Praia concentra a maior oferta, mas há boas opções espalhadas por todo o vilarejo.
- Moqueca de peixe: servida em panela de barro com dendê, leite de coco e pimenta, presente em quase todos os cardápios da ilha.
- Lagosta grelhada: especialidade dos restaurantes de Boipeba, acessível no passeio Volta à Ilha.
- Acarajé: vendido pelas baianas no centrinho, crocante por fora e recheado de vatapá e camarão seco.
- Caipirinha de cacau: variação local que usa a polpa da fruta típica do sul baiano.
Quando a maré e o clima favorecem a viagem?
O clima é tropical úmido, com temperatura média entre 25 °C e 30 °C durante todo o ano. As piscinas naturais ficam mais bonitas nas luas cheia e nova, quando a maré atinge os menores níveis.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a uma ilha onde carro não entra?
A forma mais direta é o catamarã que sai do Terminal Marítimo de Salvador, com travessia de cerca de 2 horas. Outra opção é o trajeto semi-terrestre: balsa até a Ilha de Itaparica, van até Valença e lancha rápida até o Morro, totalizando cerca de 3h30. Voos regulares de pequeno porte partem do Aeroporto de Salvador e pousam na ilha em 30 minutos. A entrada no distrito exige o pagamento da TUPA (Tarifa por Uso do Patrimônio do Arquipélago).
A ilha que troca asfalto por areia e pressa por maré
Morro de São Paulo entrega algo difícil de encontrar no litoral brasileiro: praias de águas mornas e calmas a poucos passos de um conjunto fortificado do século XVII, com vida noturna animada e natureza preservada na mesma ilha. O ritmo é ditado pela tábua de marés, não pelo relógio.
Você precisa atravessar aquele portal de pedra, largar os sapatos na areia e deixar a Ilha de Tinharé mostrar por que encanta viajantes há quase cinco séculos.