Na virada do dia 23 para 24 de junho, mais de 100 famílias descem a Ladeira Cunha e Cruz carregando andores iluminados até a margem do Rio Paraguai. Ali, a imagem de São João é mergulhada nas águas ao som de cururu e viola-de-cocho. O Banho de São João, reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2021, não se repete em nenhum outro lugar do país. Essa é Corumbá, a Capital do Pantanal, chamada de Cidade Branca pelo solo calcário que clareia ruas e construções no interior do Mato Grosso do Sul.
Do porto fluvial ao Pantanal que bate na porta
Corumbá nasceu como ponto estratégico militar às margens do Paraguai e viveu seu auge comercial no final do século XIX, quando o porto era um dos maiores da América do Sul. Casarões neoclássicos erguidos por comerciantes europeus ainda decoram o Porto Geral, conjunto tombado pelo IPHAN desde 1993. Quando a ferrovia deslocou o comércio para Campo Grande no início do século XX, a cidade ficou com o que nenhuma outra tinha: o Pantanal inteiro batendo na porta.
O município abriga cerca de 60% do Pantanal sul-mato-grossense. O bioma é Patrimônio Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera pela UNESCO desde 2000. Na seca, a região concentra a maior densidade de onças-pintadas por área do mundo.
Qualidade de vida na fronteira com a Bolívia
Corumbá faz fronteira terrestre com a Bolívia e mantém proximidade com o Paraguai. Essa posição moldou uma identidade única: nas feiras, sotaques se misturam, e a saltenha boliviana divide espaço com o quebra-torto pantaneiro. A cidade conta com aeroporto próprio e é classificada pelo Ministério do Turismo como um dos 65 destinos indutores do turismo brasileiro, recebendo em média 214 mil visitantes por ano.
A infraestrutura urbana atende o cotidiano dos cerca de 112 mil habitantes. O Forte do Junqueira, construído em 1871 com calcário local, e a Igreja de Nossa Senhora da Candelária, tombada como patrimônio estadual em 2021, são parte da paisagem do dia a dia. O Cristo Rei do Pantanal, no topo do Morro do Cruzeiro, oferece vista panorâmica de 360° da cidade e da planície alagada.
Corumbá, a “Capital do Pantanal”, é um destino fascinante que une a exuberância natural do Mato Grosso do Sul a uma rica trajetória histórica como um dos portos fluviais mais importantes do mundo. O vídeo é do canal Cidades & Cia, que conta com cerca de 175 mil inscritos, e destaca o Porto Geral, a influência da cultura fronteiriça e o papel estratégico da cidade no ecoturismo brasileiro:
O que visitar entre casarões e jacarés?
Corumbá divide seu roteiro entre a exploração urbana e a imersão no Pantanal. As atrações atendem de fotógrafos de natureza a interessados em história colonial.
- Casario do Porto Geral: conjunto neoclássico à beira do rio, com bares, galerias de artesanato e o pôr do sol mais fotografado da cidade.
- Museu de História do Pantanal (Muhpan): instalado em prédio de 1876, conta a trajetória do bioma e de seus habitantes. Entrada gratuita.
- Memorial do Homem Pantaneiro: na Casa Vasquez & Filhos, preserva a cultura do peão, das comitivas de gado e da vida ribeirinha.
- Estrada Parque Pantanal: mais de 100 km de terra que cortam o bioma como um safári a céu aberto, com jacarés, tuiuiús e capivaras à beira da estrada.
- Barcos-hotel: embarcações que partem do Porto Geral para expedições de dias dentro do Pantanal, com pesca esportiva (fora da piracema) e focagem noturna de animais.
Pintado na brasa e saltenha na esquina
A mesa corumbaense carrega as marcas de quem vive entre o rio, o Pantanal e a Bolívia. Os peixes do Paraguai são protagonistas o ano inteiro, respeitada a piracema (novembro a fevereiro).
- Pintado a urucum: filé de peixe empanado com molho de urucum, leite de coco e queijo gratinado. Receita criada em Corumbá, servida borbulhante nas casas de beira-rio.
- Saltenha: pastel assado de origem boliviana, recheado com frango, batata e temperos levemente adocicados. O lanche de rua por excelência na cidade.
- Quebra-torto: arroz carreteiro com ovos e farofa, o café da manhã do pantaneiro que acorda antes do sol.
- Pacu e dourado na brasa: peixes frescos, servidos inteiros ou em postas, acompanhados de mandioca e vinagrete.
Quando a água define o que você vai ver?
O Pantanal vive sob o ritmo das cheias e vazantes. A época da visita define completamente a paisagem.
Temperaturas aproximadas. O calor é intenso quase o ano inteiro. Hidratação e proteção solar são indispensáveis.
Como chegar à Capital do Pantanal?
Corumbá fica a 420 km de Campo Grande pela BR-262, cerca de 6h de carro. O Aeroporto Internacional de Corumbá recebe voos com conexão na capital. Para quem vem de Bonito, são aproximadamente 350 km. Dentro do Pantanal, veículo 4×4 ou barco é essencial, especialmente na época das cheias.
Onde o rio lava a alma e a planície não tem fim
Corumbá é a cidade onde o Brasil encontra a Bolívia, o calcário clareia as ruas e o Pantanal começa na saída da zona urbana. Poucos lugares do país oferecem, no mesmo destino, um casario colonial tombado, a maior planície alagável do planeta e uma festa junina em que o santo toma banho de rio.
Você precisa chegar ao Porto Geral ao entardecer, ver o Paraguai virar espelho cor de fogo e entender por que Corumbá é chamada de Cidade Branca, mas tem a alma inteira pintada pelas cores do Pantanal.