Uma carga milionária fabricada na Grande São Paulo pôs à prova a infraestrutura de transporte do país ao levar um transformador de 540 toneladas de Guarulhos ao Porto de Itaguaí (RJ), de onde segue para a Arábia Saudita para integrar o projeto Neom, megacidade linear planejada para operar com energia renovável.
Como é o transformador enviado para o projeto Neom na Arábia Saudita?
O equipamento, quarto de um lote de 14 transformadores encomendados, tem 11 metros de comprimento por seis de largura e estrutura interna delicada, o que levou técnicos a compararem o transporte a um “trabalho de relojoeiro”.
Segundo especialistas, um conjunto dessas unidades teria capacidade para abastecer eletricamente duas cidades do porte de São Paulo ou uma metrópole como Nova York, o que dimensiona a importância estratégica do carregamento para o projeto saudita.
Como foi retirada a carga milionária da fábrica até alcançar a rodovia?
Para que o transformador pudesse sair da área industrial e alcançar a rodovia, o peso foi distribuído em uma supercarreta com 380 pneus, puxada por três cavalos mecânicos e submetida a inspeções rigorosas da Polícia Rodoviária Federal.
A operação, que envolveu cerca de 50 profissionais e planejamento de um ano e meio, exigiu adequações urbanas como remoção de galhos de árvores, postes e placas, além de cuidados extremos com vibração, inclinação e frenagens para evitar danos internos ao equipamento. Veja detalhes desta operação no vídeo divulgado pelo Fantástico:
Por que a Rodovia Presidente Dutra foi parcialmente fechada para o transporte da carga milionária?
A travessia pela Rodovia Presidente Dutra foi programada para a madrugada, ainda assim gerou interrupções prolongadas e filas quilométricas, agravadas por problemas mecânicos em um dos cavalos mecânicos e por restrições legais de circulação em fins de semana.
Veja abaixo como funcionou o fechamento da rodovia:
Quais foram os principais desafios técnicos na descida da Serra das Araras?
A descida da Serra das Araras concentrou os maiores riscos, combinando curvas fechadas, aclives e declives acentuados com peso bruto próximo de 840 toneladas em movimento, exigindo monitoramento técnico contínuo de deformações em pontes e viadutos.
Para garantir segurança, engenheiros e equipes de escolta estabeleceram parâmetros operacionais rígidos durante o trecho mais crítico da viagem:
- Velocidade reduzida a cerca de 5 km/h em todo o trecho de serra;
- Comunicação constante por rádio entre motorista, escolta e equipe técnica;
- Orientações em tempo real para manobras milimétricas em curvas e declives;
- Medição de deformações em obras de arte antes e depois da passagem.
Como o transporte do transformador expõe os gargalos da infraestrutura brasileira?
O trajeto desse transformador expôs gargalos logísticos que vão além de um único transporte especial, com entregas atrasadas por clima, entraves burocráticos e limitações rodoviárias, apesar de alguma curva de aprendizado nas viagens anteriores.
Especialistas defendem investimentos mais robustos em ferrovias, pátios multimodais e modernização de pontes, apontando que a escolha do Porto de Itaguaí em vez de Santos e a redução de três para dois transformadores por navio mostram que a imagem logística do país ainda depende de avanços consistentes, mesmo com geração de empregos, arrecadação e projeção da tecnologia brasileira em um dos maiores projetos de infraestrutura do mundo.