A suspensão do Muqab, megaestrutura de arranha-céu em forma de cubo que seria o novo cartão‑postal de Riad, marca uma mudança relevante na estratégia de desenvolvimento da Arábia Saudita, em meio à reavaliação de prioridades econômicas, climáticas e de imagem internacional.
Quais os impactos da paralisação do Muqab em Riad?
A interrupção não significa o fim de New Murabba, mas altera profundamente o ritmo e o símbolo do empreendimento. O desenvolvimento imobiliário ao redor do cubo deve continuar, com horizonte de entrega alongado e maior foco em usos comerciais e residenciais de retorno mais imediato.
A previsão para conclusão de todo o complexo, inicialmente fixada em 2030, foi empurrada para 2040, sinalizando uma transição de maratona, e não de corrida de 100 metros. Nesse intervalo, autoridades urbanas analisam ajustes de escala e desenho urbano para integrar melhor o distrito ao tecido existente de Riad e às futuras linhas de metrô e BRT.
Por que o arranha‑céu em forma de cubo foi interrompido?
A decisão de suspender a construção do Muqab (projeto de cerca de R$ 285 bilhões) está ligada a custos elevados, incertezas sobre o fluxo de receitas e mudanças na agenda de prioridades nacionais. Projetos com retorno mais simbólico do que econômico tendem a ser revisados quando o orçamento é pressionado e o país busca diversificar a economia além do petróleo.
Além da questão financeira, o gigantismo da proposta trazia implicações de longo prazo em operação e manutenção. Um edifício dessa escala exigiria grandes volumes de energia para climatização em clima desértico, além de intenso consumo de água e serviços, ampliando o risco de obsolescência se as demandas urbanas e turísticas mudarem. Veja os detalhes:
- Pausa na obra enquanto as autoridades reavaliam o financiamento e a viabilidade do projeto.
- O projeto está ligado ao ambicioso plano econômico Vision 2030, que está sendo recalibrado para reduzir gastos com grandes megaprojetos.
- O Public Investment Fund (fundo soberano) está reprivilegiando investimentos em iniciativas com retorno mais rápido (como infraestruturas para Expo 2030 e Copa do Mundo de 2034).
- Pressões fiscais e receitas de petróleo menores do que o esperado aumentaram cautela com custos elevados.
- O desenvolvimento maior do distrito New Murabba teve seu prazo estendido, refletindo a reavaliação geral do escopo de obras.
Como a suspensão do arranha-céu afeta o desenvolvimento econômico saudita?
No centro da mudança está o reposicionamento do fundo soberano saudita (PIF), que deixa de concentrar tantos recursos em um único marco arquitetônico. Em vez disso, o país prioriza áreas com retorno econômico mais direto, como logística, mineração, indústria verde, turismo distribuído e inteligência artificial.
Ao mesmo tempo, cresce a pressão para entregar infraestrutura básica e equipamentos urbanos antes de dois eventos‑chave: a Expo 2030, em Riad, e a Copa do Mundo da FIFA de 2034, com partidas no território saudita. Esse redirecionamento inclui investimentos em transporte público, aeroportos modernizados, redes digitais de alta capacidade e habitação para trabalhadores desses novos polos. Veja os impactos econômicos:
Impactos Econômicos da Suspensão do Muqab
Como a suspensão do arranha-céu impacta as emissões e o meio ambiente?
A interrupção do Muqab levanta uma pergunta central sobre emissões de carbono em megaprojetos urbanos. No curto prazo, a suspensão tende a reduzir emissões associadas à produção de aço e cimento, materiais com grande peso na pegada global de CO2, especialmente em construções de enorme escala.
Ao tirar temporariamente do papel um projeto dessa dimensão, a Arábia Saudita adia emissões ligadas a materiais, transporte, obras e operação intensiva. No entanto, o efeito líquido depende do destino dos recursos redirecionados e do tipo de infraestrutura que será priorizada, podendo apenas deslocar emissões no tempo e no espaço. Veja os detalhes desse projeto no vídeo divulgado pelo urbanista Rafael Drumond, via TikTok:
@rfaeldrumond A Arábia Saudita iniciou a construção do Mukaab, um gigantesco edifício em forma de cubo que será o maior do mundo, com 400 metros de altura e 360 metros de largura. Localizado em Riyadh, o projeto custará 50 bilhões de dólares e faz parte da iniciativa Vision 2030, que busca diversificar a economia do país além do petróleo. O Mukaab funcionará como uma "cidade dentro de uma caixa", abrigando 104 mil unidades residenciais, 9 mil quartos de hotel, espaços comerciais, escritórios e áreas verdes. #cidade #planejamentourbano #urbanismo #mukaab #arabiasaudita #arquitetura #noticia #curiosidade ♬ som original – Rafael Drumond
Quais os benefícios dos novos investimentos nas emissões de carbono?
Nesse cenário, diferentes alternativas de investimento podem alterar o perfil, mas não necessariamente o volume total de emissões sauditas. A seguir, alguns exemplos mostram como a pegada de carbono pode mudar de forma e localização, sem garantir redução significativa no agregado nacional:
- Menos cimento e aço agora podem significar emissões apenas adiadas para obras futuras de grande porte.
- Mais logística, estradas, aeroportos e resorts podem compensar o “alívio” ambiental com novas fontes relevantes de CO2.
- Centros de dados e tecnologia trazem consumo elétrico contínuo e alta demanda de refrigeração, sobretudo em clima desértico.
Em climas muito quentes, como o de Riad, manter grandes espaços e data centers refrigerados é um dos principais fatores de gasto energético. Ao trocar um cubo monumental por infraestrutura tecnológica e hubs de serviços, o impacto passa de alta intensidade na construção para emissões distribuídas ao longo de décadas de operação.