A crise de escassez de água na Jordânia é hoje um dos casos mais emblemáticos de stress hídrico no mundo, agravado pelo aumento populacional, chegada de refugiados e alterações climáticas, o que levou a União Europeia (UE) a atuar como parceira central em projetos de segurança hídrica, como os de dessalinização do mar.
Como a União Europeia apoia a segurança hídrica na Jordânia?
A UE tornou-se um dos principais financiadores da reforma do setor hídrico jordaniano, em estreita coordenação com o Banco Europeu de Investimento (BEI) e agências como a francesa AFD e a alemã KfW. O foco é reforçar o abastecimento de água, modernizar infraestrutura crítica e criar soluções de longo prazo para um dos países mais secos do planeta.
A escassez de água na Jordânia é agravada pelo fluxo contínuo de refugiados palestinos, iraquianos e sírios, que pressiona os sistemas de abastecimento urbano e rural. Para responder a essa pressão, o BEI mobilizou um empréstimo de 400 milhões de euros, com prazo de 30 anos, apoiado por garantias da UE.
Quais projetos estruturantes ajudam a aliviar a escassez de água?
Um dos projetos mais simbólicos é a central de água potável Wadi Al Arab II, no Vale do Jordão, região agrícola estratégica e historicamente relevante. Cofinanciada pela UE, BEI e AFD, a instalação produz e transporta cerca de 30 milhões de metros cúbicos de água por ano para o norte da Jordânia, onde vivem centenas de milhares de refugiados sírios.
A água utilizada vem do Canal do Rei Abdullah, um dos raros cursos d’água do país, cuja renovação conta com apoio da agência alemã KfW para reduzir fugas e melhorar o transporte. Estima-se que até metade da água que entra nos sistemas urbanos seja perdida por vazamentos ou distribuída sem autorização. Veja projeto realizado pela Arábia Saudita (Reprodução/YouTube/Tecno Lab 360):
Como o tratamento e o reuso de águas residuais contribuem para a agricultura?
Outro eixo de ação é o tratamento e reutilização de águas residuais, com foco especial no uso agrícola, reduzindo a pressão sobre a água potável. A UE cofinancia seis estações de tratamento em Balqa, Madaba, oeste de Irbid, Ramtha, Ghabawi e Azraq, buscando transformar esgoto tratado em recurso estável para irrigação.
Essa estratégia reduz a poluição, aumenta a oferta disponível em um cenário de escassez crônica e amplia a resiliência de agricultores afetados por secas mais intensas. Ao liberar mais água potável para o consumo doméstico, o país tenta equilibrar demandas urbanas e rurais e construir um modelo de uso eficiente da água. Veja os detalhes:
- A Jordânia enfrenta forte escassez de água, tornando o reuso essencial para a agricultura.
- Águas residuais tratadas são utilizadas principalmente na irrigação de culturas não consumidas cruas, como forragens e árvores frutíferas.
- O reaproveitamento reduz a dependência de fontes naturais limitadas, como rios e aquíferos subterrâneos.
- O processo de tratamento remove poluentes e microrganismos, tornando a água segura para uso agrícola.
- Nutrientes presentes na água tratada (como nitrogênio e fósforo) ajudam a fertilizar o solo, diminuindo custos com adubos.
- O reuso contribui para a segurança alimentar e mantém a produção agrícola mesmo em períodos de seca.
- Também reduz o descarte de esgoto no meio ambiente, protegendo ecossistemas locais.
Por que o projeto de dessalinização Aqaba-Amã é importante para o abastecimento?
Entre todas as iniciativas, o megaprojeto Aqaba-Amã é visto como um divisor de águas na luta contra a escassez hídrica na Jordânia. A proposta é extrair água do Mar Vermelho, em Aqaba, dessalinizá-la com tecnologias de alta eficiência e enviá-la por cerca de 450 quilômetros até a capital, Amã, aumentando em cerca de 60% o abastecimento de água potável do país.
Com custo estimado em mais de 4 bilhões de euros, o consórcio é liderado por duas empresas francesas, com início das obras previsto para 2026. A UE participa com 97 milhões de euros em subvenções e 300 milhões de euros em empréstimos do BEI, além de negociar novo financiamento para ampliar a participação do setor privado. Veja os impactos do projeto:
🌊 Projeto Aqaba-Amã de Dessalinização
Por que a iniciativa é estratégica para o abastecimento de água na Jordânia
💧 Escassez hídrica crítica
A Jordânia está entre os países com maior falta de água do mundo, possuindo recursos naturais extremamente limitados.
🚰 Dessalinização do Mar Vermelho
O projeto permitirá transformar água do mar em água potável para consumo humano em larga escala.
🏙️ Abastecimento da capital
A água será transportada por centenas de quilômetros até Amã, onde vive grande parte da população.
🌍 Preservação dos aquíferos
Reduz a exploração excessiva das reservas subterrâneas atualmente utilizadas acima do limite sustentável.
☀️ Proteção contra secas
Diminui impactos das secas prolongadas e das mudanças climáticas na segurança hídrica nacional.
📈 Estabilidade econômica e social
Garante água contínua para população, indústria e serviços essenciais, fortalecendo o desenvolvimento do país.
Quais os impactos do megaprojeto na Jordânia?
Para a delegação da UE em Amã, a cooperação no setor hídrico jordaniano oferece lições que vão além do Oriente Médio e ajudam a enfrentar secas mais frequentes na Europa. Segundo o chefe da delegação, Pierre-Christophe Chatzisavas, a parceria entre UE e Jordânia pode servir de referência em um contexto em que secas já geram custos anuais.
A combinação de financiamento de longo prazo, inovação tecnológica, reuso de água e energias renováveis resulta em um modelo integrado de resposta à escassez, com impactos diretos sobre cidades, agricultura e refugiados. Entre os principais resultados esperados dessa abordagem, destacam-se:
- Ampliação da oferta de água para áreas urbanas críticas e para a capital, Amã.
- Reforço da segurança hídrica em regiões que acolhem grandes contingentes de refugiados.
- Redução de perdas físicas nas redes de distribuição e combate a ligações irregulares.
- Reuso de água tratada na agricultura para poupar água potável e reduzir poluição.