Em um dos trechos mais sensíveis da BR-285/RS, em São José dos Ausentes, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) passou a adotar a muvuca de sementes no âmbito do Programa de Recuperação de Áreas Degradadas e Passivos Ambientais (PRAD).
O que é a muvuca de sementes e qual sua origem?
A muvuca de sementes é uma técnica de semeadura direta que mistura sementes de diversas espécies nativas e as distribui em áreas degradadas para favorecer a recuperação da cobertura vegetal. A prática tem origem ancestral e indígena, historicamente usada em florestas da Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.
No trecho da BR-285/RS, o DNIT aplica uma versão ajustada à realidade dos Campos de Cima da Serra, inspirada em experiências do bioma Pampa. Essa abordagem permite testar combinações de sementes adequadas ao clima, altitude e solo da região, priorizando espécies adaptadas às condições locais.
Como a muvuca de sementes é aplicada na BR-285/RS?
Na recuperação de áreas degradadas na BR-285/RS, a muvuca integra o PRAD como complemento à hidrossemeadura e ao enleivamento. A coleta das sementes é feita em campo, priorizando espécies nativas da própria região, que depois passam por triagem e preparo em horto botânico vinculado ao empreendimento.
A aplicação ocorre manualmente a lanço, por equipamentos acoplados a veículos ou combinada com solos orgânicos do entorno, sobretudo em taludes, áreas de empréstimo e pontos de movimentação de terras. Entre as vantagens estão a eficiência ecológica, a viabilidade em terrenos irregulares e o potencial de redução de custos e de uso de espécies exóticas. Veja imagens de como funciona a técnica na prática (Reprodução/Instagram/@rioterra.org.br):
Quais benefícios ecológicos e operacionais a técnica oferece?
Esse mosaico de espécies aumenta a resiliência da área em restauração e favorece a sucessão natural e a conectividade de habitats próximos.
Do ponto de vista operacional, o uso de sementes e solos coletados em áreas próximas reduz transporte de material, custos logísticos e dependência de viveiros distantes. A seguir, alguns dos principais benefícios observados e esperados com a adoção sistemática da técnica:
🌱 Benefícios Ecológicos e Operacionais da Muvuca de Sementes
A técnica fortalece a restauração ambiental ao aumentar a biodiversidade, reduzir custos operacionais e acelerar processos naturais de regeneração.
🌿 Cobertura Rápida do Solo
Maior taxa de cobertura vegetal em menos tempo, reduzindo erosão e o escoamento superficial da água.
🌳 Espécies Nativas Adaptadas
Favorece plantas adaptadas ao clima local, exigindo menor manutenção e aumentando a sobrevivência das mudas.
🔄 Regeneração Natural Integrada
Integra-se à vegetação espontânea, fortalecendo a sucessão ecológica e a conectividade entre habitats próximos.
💰 Redução de Custos Operacionais
Uso de sementes e solos locais diminui transporte, custos logísticos e dependência de viveiros distantes.
Como é realizado o monitoramento dos resultados?
O monitoramento na BR-285/RS ocorre por etapas e utiliza indicadores que medem a evolução da restauração, como surgimento de plântulas, grau de cobertura do solo e dinâmica de espécies espontâneas. As equipes de campo registram as condições iniciais, acompanham a germinação e revisam periodicamente a composição da mistura.
Em vistoria recente, o Ibama destacou resultados considerados promissores na coleta e na semeadura, recomendando continuidade da prática e ampliação do número de espécies. Entre as rotinas de monitoramento e ajuste, destacam-se:
- Aplicar a muvuca em áreas recém-intervencionadas.
- Registrar as condições iniciais de solo e vegetação.
- Monitorar a germinação e o crescimento das plantas ao longo dos meses.
- Rever a lista de espécies e as proporções na mistura conforme os resultados.
Qual a relação da muvuca de sementes com a restauração de ecossistemas?
A adoção da muvuca na BR-285/RS se insere no debate sobre restauração ambiental e infraestrutura sustentável no Brasil, alinhando-se à Década da ONU da Restauração de Ecossistemas (2021–2030). Ao priorizar sementes nativas e regeneração natural, a metodologia busca compatibilizar obras rodoviárias com funções ecológicas.
A experiência na rodovia gaúcha funciona como laboratório a céu aberto para testar soluções replicáveis em outros empreendimentos, aproximando conhecimento científico, saber tradicional e gestão ambiental. Com isso, a restauração deixa de ser apenas exigência legal e passa a ser incorporada desde o projeto, com atenção aos impactos.