O interesse dos Estados Unidos pela Groenlândia costuma ganhar destaque apenas quando surge alguma polêmica recente, mas a história mostra que essa aproximação é bem mais antiga. Desde o século XIX, Washington enxerga o território como peça estratégica no tabuleiro geopolítico, principalmente por causa de sua posição no Ártico e de seus recursos naturais. Ao longo de mais de 150 anos, diferentes governos americanos voltaram ao mesmo tema com propostas, memorandos e acordos militares, refletindo a crescente importância do Ártico na política global.
Por que a Groenlândia se tornou estratégica para os Estados Unidos?
Em 1867, ano em que os Estados Unidos compraram o Alasca da Rússia, o então secretário de Estado William Seward já avaliava a possibilidade de adquirir a Groenlândia, aproximando o plano de uma política mais ampla de expansão territorial no extremo norte.
Naquele contexto, o país buscava consolidar sua influência no hemisfério ocidental. A Groenlândia aparecia como ativo promissor pela possível existência de riquezas minerais e pela localização próxima ao Polo Norte, embora a negociação não tenha sido formalizada e o tema tenha permanecido em segundo plano nas décadas seguintes.
Como evoluiu o interesse dos Estados Unidos na Groenlândia?
No início do século XX, o interesse americano ganhou novos contornos. Em 1910, o embaixador dos Estados Unidos na Dinamarca, Maurice Franz Egan, sugeriu ceder uma ilha nas Filipinas, então sob controle americano, em troca da Groenlândia, mas a proposta não avançou diante de outras prioridades estratégicas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o tema voltou com força. Em 1941, com a Dinamarca ocupada pela Alemanha nazista, Washington e Copenhague firmaram acordo pelo qual os Estados Unidos assumiram a proteção da Groenlândia, instalando estruturas militares e usando a ilha como ponto de apoio logístico no Atlântico Norte.
Qual foi o papel da Guerra Fria e das bases militares na Groenlândia?
Em 1946, já no início da Guerra Fria, o presidente Harry Truman apresentou a primeira oferta formal de compra da Groenlândia, estimada em 100 milhões de dólares em barras de ouro. Documentos do Departamento de Estado defendiam que a ilha seria “pouco útil” para a Dinamarca, mas crucial para a defesa dos EUA contra um possível ataque soviético.
A Dinamarca recusou a venda, mas autorizou a permanência de bases militares, entre elas a Base Aérea de Thule, que segue ativa. Essas instalações passaram a integrar sistemas de defesa antimísseis, radares de alerta antecipado e monitoramento do espaço aéreo ártico, consolidando a presença americana sem transferência de soberania.
Por que Donald Trump retomou a ideia de comprar o território em 2019?
Em 2019, o interesse dos Estados Unidos pela Groenlândia voltou à cena quando o presidente Donald Trump discutiu internamente a possibilidade de adquirir o território, descrevendo a operação como um grande negócio imobiliário. A revelação gerou reação imediata na Dinamarca, que afirmou que “a Groenlândia não está à venda”, levando Trump a cancelar uma visita oficial a Copenhague.
Fontes do governo americano indicaram que essa retomada do interesse se ligava a uma visão mais ampla de hegemonia no hemisfério ocidental e no Ártico. A Groenlândia surgiu novamente como peça estratégica por seu posicionamento militar e por reservas potenciais de minerais críticos, relevantes em cadeias de tecnologia, energia limpa e indústria de defesa.
Quais os impactos na geopolítica atual?
A trajetória do interesse americano pela Groenlândia, de 1867 ao governo Trump, ilustra como o Ártico se transformou em região observada com atenção por potências globais. Com o derretimento do gelo e a abertura de novas rotas marítimas, a ilha deixa de ser vista apenas como massa de gelo distante e passa ao centro de debates sobre defesa, clima e recursos naturais.
Nesse cenário, diferentes atores avaliam riscos, oportunidades econômicas e disputas de influência no Ártico, o que ajuda a entender por que a cooperação e a competição aumentam ao redor da Groenlândia:
- Os Estados Unidos mantêm acordos de defesa, uso de bases militares e cooperação científica com a Dinamarca e a Groenlândia.
- A Groenlândia é território autônomo, com governo e parlamento próprios, e busca equilibrar desenvolvimento econômico, mineração e preservação ambiental.
- Potências como Rússia, China e países nórdicos acompanham de perto a região, interessados em rotas marítimas, energia e minérios estratégicos.
- Estudos apontam potencial para recursos como terras raras e urânio, cuja exploração é limitada por salvaguardas ambientais e decisões políticas locais.