O Conselho Federal de Medicina (CFM) informou nesta quarta-feira (7/1) que solicitou ao Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) a abertura de uma sindicância para investigar como foi conduzido o atendimento ao ex-presidente Jair Bolsonaro, após a queda que resultou em um traumatismo craniano na Superintendência da Polícia Federal, onde cumpre pena.
Como o CFM se manifestou sobre o atendimento a Bolsonaro?
Segundo o CFM, a preocupação central é garantir que qualquer pessoa sob custódia do Estado, especialmente com quadro clínico complexo, tenha acesso a cuidados médicos contínuos e compatíveis com suas necessidades. A entidade destacou que relatos públicos sobre intercorrências clínicas envolvendo Bolsonaro geraram inquietação na sociedade, motivando medidas formais de apuração.
O CFM informou ter determinado ao Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) a instauração de uma sindicância para avaliar a condução do atendimento ao ex-presidente, desde o episódio da queda na cela até as decisões sobre remoção para hospital. Essa apuração preliminar busca identificar se o atendimento respeitou normas éticas e técnicas, independentemente de questões políticas ou judiciais. Veja a publicação do CFM:
Quais são as principais preocupações no caso Bolsonaro?
Na nota, o CFM destaca fatores clínicos de alto risco no quadro de Jair Bolsonaro, como crises agudas de diferentes características, trauma por queda, histórico de múltiplas cirurgias abdominais, soluços persistentes e intratáveis, além de comorbidades associadas à idade. Em conjunto, esses elementos exigem um protocolo de monitoramento contínuo e imediato.
Esse protocolo costuma envolver acompanhamento médico regular, observação de sinais neurológicos após traumas na cabeça, controle de dor, avaliação de possíveis sangramentos internos e exames complementares conforme a evolução do quadro. A ausência de resposta rápida a qualquer piora clínica tende a aumentar riscos, sobretudo em pacientes idosos com histórico cirúrgico extenso.
Como a decisão judicial e o tempo de resposta influenciam o caso?
O episódio ganhou maior repercussão após a informação de que, inicialmente, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, havia negado pedido para que Bolsonaro fosse levado ao hospital, autorizando a remoção apenas no dia seguinte. Esse intervalo levantou dúvidas sobre o tempo de resposta, o fluxo de atendimento dentro da unidade da PF e a eventual influência de decisões judiciais na conduta médica.
O CFM reforça que, embora não possa alterar decisões judiciais, pode se manifestar tecnicamente sobre a necessidade de assistência médica e defender que medidas clínicas urgentes não sejam retardadas por motivos alheios ao interesse do paciente. Para a entidade, o Estado tem obrigação reforçada de garantir atendimento adequado a quem está sob sua custódia.
Como o CFM defende a autonomia do médico assistente?
Um dos pontos centrais da posição do CFM é a defesa da autonomia do médico assistente, que deve ter liberdade técnica para decidir sobre encaminhamentos, internações, exames e demais condutas, com base em critérios científicos e éticos, sem sofrer qualquer influência indevida. O princípio da presunção de veracidade dos registros médicos é ressaltado como proteção ao ato profissional.
Para o sistema de fiscalização, a violação dessa autonomia pode ocorrer se houver pressão para retardar transferência hospitalar, negar exame indicado ou restringir acesso a medicamentos. Em casos de grande repercussão, como o de Bolsonaro, o risco de interferências externas é considerado maior, o que justifica o tom cauteloso da nota do CFM e a atenção às condições de custodiados em geral.