O Brasil enfrenta, neste ano, dois surtos do chamado “superfungo”, o Candida auris, um microrganismo resistente que tem despertado alerta entre as autoridades de saúde. Os casos se concentram nos estados de São Paulo e Pernambuco, segundo informações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Considerado uma ameaça séria à saúde pública mundial, o Candida auris pode provocar infecções invasivas associadas a altos índices de mortalidade, além de aumentar os custos hospitalares. De acordo com a Anvisa, surtos do superfungo em ambientes hospitalares são especialmente preocupantes, pois o microrganismo é difícil de erradicar do ambiente e requer técnicas laboratoriais específicas para identificação — algo que ainda não está disponível em grande parte dos laboratórios brasileiros.
Como o Candida auris se espalha nos hospitais?

O Candida auris é particularmente problemático em ambientes hospitalares devido à sua resistência a desinfetantes comuns e à dificuldade de eliminação do ambiente. Ele pode sobreviver em superfícies por longos períodos, facilitando sua transmissão entre pacientes. Além disso, a identificação do fungo requer métodos especializados que muitos laboratórios ainda não possuem, complicando o controle de surtos.
Em Pernambuco, por exemplo, o Hospital Otávio de Freitas relatou quatro casos de infecção por Candida auris em 2025, todos provenientes da Unidade de Terapia Intensiva Clínica. Em São Paulo, o Hospital do Servidor Público Estadual identificou 15 pessoas que tiveram contato com o fungo, embora apenas um caso tenha evoluído para infecção.
Quais são os desafios no combate ao ‘superfungo’?
O combate ao ‘superfungo’ enfrenta vários desafios. Primeiramente, sua resistência a medicamentos como fluconazol, anfotericina B e equinocandinas dificulta o tratamento eficaz das infecções. Estudos indicam que até 90% dos isolados do fungo são resistentes a pelo menos um desses medicamentos.
Além disso, a falta de métodos de diagnóstico adequados em muitos laboratórios brasileiros dificulta a identificação precoce e o controle de surtos. A Anvisa destaca a necessidade de melhorar a capacidade de diagnóstico e implementar medidas rigorosas de controle de infecção para conter a disseminação do fungo nos serviços de saúde.
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1. Resistência a antifúngicos:
- Multirresistência: C. auris possui uma notável capacidade de desenvolver resistência a múltiplas classes de antifúngicos comumente utilizados, como azóis, equinocandinas e polienos. Algumas cepas são resistentes a todas as três principais classes, tornando o tratamento extremamente difícil e limitando as opções terapêuticas.
- Rápido desenvolvimento de resistência: A capacidade de C. auris de desenvolver resistência rapidamente sob pressão seletiva de antifúngicos agrava ainda mais o problema.
- Testes de suscetibilidade: A necessidade de testes de suscetibilidade antifúngica precisos é crucial para guiar o tratamento, mas nem sempre estão prontamente disponíveis ou padronizados.
2. Diagnóstico:
- Dificuldade de identificação: Os métodos laboratoriais convencionais podem frequentemente identificar erroneamente C. auris como outras espécies de Candida (como Candida haemulonii), levando a atrasos no diagnóstico e na implementação de medidas de controle adequadas.
- Necessidade de métodos avançados: A identificação precisa geralmente requer métodos mais sofisticados, como espectrometria de massa MALDI-TOF ou técnicas moleculares (PCR), que nem todos os laboratórios possuem.
- Apresentação clínica não específica: Os sintomas da infecção por C. auris podem ser semelhantes aos de outras infecções, dificultando o diagnóstico clínico precoce.
3. Transmissão e controle em ambientes de saúde:
- Persistência no ambiente: C. auris pode sobreviver por longos períodos em superfícies secas e em equipamentos hospitalares, contribuindo para a sua disseminação no ambiente de saúde.
- Resistência a desinfetantes: Nem todos os desinfetantes comuns são eficazes contra C. auris, exigindo produtos específicos para a limpeza e desinfecção adequadas.
- Transmissão por contato: A transmissão ocorre principalmente por contato direto com pacientes colonizados ou infectados e indiretamente através de superfícies e equipamentos contaminados.
- Colonização assintomática: Pacientes podem estar colonizados por C. auris sem apresentar sintomas, atuando como reservatórios e disseminadores do fungo sem que se saiba.
- Desafios nas medidas de controle: Mesmo em instituições com protocolos de controle de infecção estabelecidos, surtos de C. auris podem ser difíceis de controlar devido à sua persistência e facilidade de disseminação.
- Movimentação de pacientes: A transferência de pacientes entre unidades e instituições pode facilitar a disseminação do fungo se as precauções adequadas não forem tomadas.
Quais medidas podem ser adotadas para prevenir surtos?
Para prevenir surtos de Candida auris, é essencial adotar uma abordagem multifacetada. Isso inclui a implementação de protocolos rigorosos de higiene e desinfecção em hospitais, além de treinamentos para profissionais de saúde sobre a identificação e manejo de infecções por este fungo.
- Fortalecer a vigilância epidemiológica para monitorar a presença do fungo em ambientes hospitalares.
- Investir em tecnologia e capacitação de laboratórios para garantir diagnósticos precisos e rápidos.
- Desenvolver e aplicar diretrizes de controle de infecção específicas para o Candida auris.
Essas medidas são cruciais para minimizar o impacto do fungo na saúde pública e evitar que ele se torne uma ameaça ainda maior no futuro.