Projetos como Angra 3, Transnordestina e transposição do São Francisco exigem novos investimentos, decisões políticas e soluções para entraves ambientais
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciará seu quarto mandato diante do desafio de concluir ou destravar grandes projetos de infraestrutura que se arrastam há anos. Além dos atrasos, o governo terá de lidar com a pressão sobre as contas públicas e a redução dos recursos disponíveis para investimentos, especialmente no setor de transportes.
Pelo menos cinco obras consideradas estratégicas acumulam pendências. Algumas começaram há décadas e atravessaram diferentes administrações, incluindo os primeiros governos do próprio Lula.
É o caso da Ferrovia Transnordestina, iniciada em 2006, durante o primeiro mandato do petista. Ainda falta concluir o trecho entre Salgueiro e Suape, em Pernambuco. Na área de energia, permanece indefinido o futuro da Usina Nuclear de Angra 3, cujo projeto enfrenta décadas de paralisações e incertezas.
Outro compromisso do presidente é concluir a ampliação da transposição do rio São Francisco até o Rio Grande do Norte.
Orçamento menor e pressão sobre as contas públicas
Os projetos têm em comum a necessidade de aportes bilionários do governo federal, em um cenário de preocupação com o crescimento da dívida pública e o equilíbrio das contas nacionais.
Também existem obstáculos relacionados ao licenciamento e aos impactos ambientais. Esse tipo de impasse aparece em projetos na Amazônia, como a exploração do pedral e a pavimentação da BR-319.
A proposta de Orçamento para 2027 prevê R$ 16,07 bilhões em investimentos federais em infraestrutura de transporte, considerando recursos da União e de empresas estatais. O levantamento é da Confederação Nacional do Transporte (CNT).
O montante representa uma redução de R$ 661,28 milhões em relação à proposta de 2026, equivalente a uma queda real de 4%, já descontada a inflação.
Os valores ainda podem ser modificados durante a tramitação no Congresso Nacional. Mesmo após a aprovação do Orçamento, a realização dos investimentos dependerá da liberação dos recursos e do cumprimento das regras fiscais.
Angra 3 segue sem definição
No litoral do Rio de Janeiro, o governo terá de decidir se retoma e conclui a construção de Angra 3 ou se encerra definitivamente o projeto. A iniciativa remonta à década de 1980, passou por diversas interrupções e teve a retomada autorizada em 2007, durante o segundo mandato de Lula. As obras avançaram novamente, mas foram suspensas em 2015.
Em 2021, a Eletronuclear chegou a anunciar que a usina entraria em operação em novembro de 2026, prazo que não foi cumprido.
Um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), divulgado pela empresa no fim de 2025, passou a considerar março de 2033 como previsão para a conclusão. O levantamento estimou em R$ 23,9 bilhões o custo necessário para finalizar a usina.
Caso o governo opte pelo abandono da construção, as despesas estimadas ficariam entre R$ 21,9 bilhões e R$ 25,9 bilhões.
A decisão será do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), composto por ministros. Entre as alternativas em análise estão a participação de investidores privados ou a conclusão do empreendimento com recursos da União e da ENBPar, estatal que controla a Eletronuclear.
A proposta de orçamento de investimentos das empresas estatais prevê R$ 1,12 bilhão para a implantação de Angra 3 em 2027. O valor, porém, não garante o financiamento necessário para concluir o empreendimento.