As empresas listadas na Bolsa brasileira perderam cerca de R$ 873 bilhões em valor de mercado na semana seguinte ao segundo turno das eleições presidenciais, que confirmou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Para o especialista Daniel Teles, sócio da Valor Investimentos, a queda representa uma reação exagerada do mercado.
Em entrevista à CNN Money, Teles afirmou que, nos três meses anteriores à votação, a Bolsa foi impulsionada pela especulação em torno do chamado trade eleitoral. Após o primeiro turno, o Ibovespa chegou a se aproximar dos 210 mil pontos. Com o resultado eleitoral, parte dessa valorização foi revertida, levando o índice a operar na faixa dos 168 mil pontos.
Segundo o especialista, investidores institucionais haviam ampliado suas posições no Brasil na expectativa de um resultado eleitoral diferente, que, na avaliação deles, poderia favorecer as contas públicas e o controle da relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB). Com a vitória de Lula, parte desses investidores decidiu reduzir a exposição ao país.
“O institucional acaba entendendo que o risco fiscal é muito grande e que não compensa”, afirmou Teles.
Apesar da reação negativa, o especialista ressaltou que as empresas brasileiras não perderam sua capacidade de gerar receita ou apresentar resultados por causa do resultado das urnas. Ele também observou que o Ibovespa, negociado a cerca de oito vezes o lucro das companhias, estaria abaixo de sua média histórica.
“Quando você compra ações de uma empresa, você está escolhendo uma companhia para se tornar sócio, e essa companhia não perdeu a sua qualidade de entregar resultado simplesmente por conta da questão eleitoral”, disse.
Especialista não vê recuperação da Bolsa ainda em 2026
Questionado sobre a possibilidade de melhora do mercado até o fim de 2026, Teles afirmou não acreditar em uma recuperação no curto prazo. Ele citou a alta dos juros futuros, a falta de sinalizações do governo sobre responsabilidade fiscal e o volume de aproximadamente R$ 400 bilhões em dívida contratada durante o período eleitoral.
O especialista também mencionou a revisão das projeções para a taxa Selic por grandes bancos. Segundo ele, o mercado passou a considerar a possibilidade de o Banco Central não realizar o corte de juros esperado na reunião seguinte.
Outro fator apontado foi a expansão do crédito subsidiado, que, na avaliação de Teles, pode dificultar a continuidade da redução dos juros.
“Pessoas próximas ao governo vêm sinalizando que não existe nenhum tipo de preocupação com o fiscal”, declarou.
Dólar sobe e varejo e construção civil são afetados
A saída de recursos do país também pressionou o câmbio. De acordo com os dados apresentados na entrevista, o dólar passou de aproximadamente R$ 4,99, antes do segundo turno, para cerca de R$ 5,30.
Para Teles, a desvalorização do real pode aumentar a pressão inflacionária e dificultar o cenário econômico. Ele avalia que parte do capital retirado do Brasil tende a buscar alternativas nos Estados Unidos, como títulos de renda fixa e empresas de inteligência artificial, além de outros mercados emergentes.
Entre os setores mais expostos à alta dos juros, o especialista destacou o varejo e a construção civil, por dependerem mais das condições de crédito.
“Todo setor que depender de alguma forma da trajetória do mercado de juros acaba sofrendo mais”, afirmou.
Na avaliação de Teles, a perspectiva de gastos públicos elevados e expansão dos subsídios ao crédito pode manter a Selic em níveis superiores aos patamares históricos durante os próximos anos.
