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Início Eleições

Como Lula conquistou 10 milhões de votos a mais e virou a disputa contra Flávio Bolsonaro

Por Junior Melo
26/out/2026
Em Eleições
Foto: Aman da Probelli/ Reuters

Foto: Aman da Probelli/ Reuters

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Presidente ampliou sua votação entre os turnos, enquanto o comparecimento às urnas cresceu cerca de 3 milhões; transferência de votos e mudanças na participação ajudam a explicar o resultado.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reverteu uma desvantagem de aproximadamente 2,2 milhões de votos no primeiro turno e terminou o segundo com uma vantagem de cerca de 4,4 milhões sobre Flávio Bolsonaro (PL). Entre as duas etapas da eleição, o petista ampliou sua votação em aproximadamente 10,4 milhões de votos, enquanto o adversário também registrou crescimento.

A mudança no resultado ocorreu apesar das projeções divulgadas durante a campanha, que apontavam dificuldades para a reeleição de Lula. Entre os fatores considerados estavam a vantagem de Flávio no primeiro turno, o alinhamento de parte dos candidatos derrotados com a direita e a expectativa de aumento da abstenção no segundo turno.

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Os números, porém, indicam que o resultado não pode ser explicado apenas pela entrada de novos eleitores nas urnas. A transferência de votos entre candidatos, a mobilização de eleitores que não compareceram anteriormente e as mudanças nas escolhas dos votantes também precisam ser consideradas.

Projeções indicavam vantagem para Flávio

Em 8 de outubro, pesquisadores do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) divulgaram um modelo que atribuía 19% de probabilidade de vitória a Lula.

A estimativa utilizava como referência uma pesquisa Datafolha que apontava Flávio com 52% dos votos válidos, contra 48% do presidente. A projeção do modelo era de 52,2% para o senador e 47,8% para o petista.

Os pesquisadores destacaram a rejeição aos candidatos e o baixo percentual de eleitores que afirmavam estar dispostos a mudar de voto. Outro fator considerado era o histórico eleitoral: desde 1989, nenhum candidato presidencial que havia terminado o primeiro turno na segunda colocação conseguira reverter o resultado no segundo.

Na véspera da votação, levantamentos ainda indicavam uma disputa apertada, com vantagem numérica para Flávio em parte das pesquisas. A sondagem BTG/Nexus divulgada em 24 de outubro, por exemplo, apontava 50,5% dos votos válidos para o senador e 49,5% para Lula.

Em um cenário que considerava a probabilidade de comparecimento dos entrevistados, a vantagem de Flávio aumentava para 52,4%, contra 47,6% do petista.

Modelo do BTG não previa a virada

Um estudo elaborado pelos economistas Tiago Berriel e Mateus Della, do BTG Pactual, analisou diferentes possibilidades para a transferência de votos entre os turnos e para a entrada e saída de eleitores.

O levantamento examinou 27 combinações de cenários e, segundo o relato, nenhuma projetava uma vitória de Lula. No cenário central, os pesquisadores consideravam a entrada de 5,5 milhões de eleitores que haviam faltado ao primeiro turno e a ausência de outros 5 milhões que tinham participado da primeira votação.

O estudo também calculou que, se a virada dependesse exclusivamente da mobilização de eleitores ausentes, Lula precisaria receber 70% dos votos adicionais, contra 30% para Flávio. Nesse cenário, seriam necessários aproximadamente 12,6 milhões de comparecimentos extras, com a abstenção caindo para cerca de 13,1%.

O resultado efetivo foi diferente das premissas utilizadas nessa simulação. A abstenção teria recuado para aproximadamente 19,2%, insuficiente para explicar a virada apenas pelo aumento da participação eleitoral.

Votos dos candidatos derrotados entraram na disputa

No primeiro turno, Flávio havia recebido cerca de 56,1 milhões de votos, enquanto Lula somara aproximadamente 53,9 milhões. Os demais candidatos reuniram cerca de 9,3 milhões de votos.

Parte das lideranças derrotadas declarou apoio ao senador, entre elas Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante). Esse alinhamento político alimentou a expectativa de que Flávio teria vantagem na disputa pelos eleitores dessas candidaturas.

Entretanto, o apoio de uma liderança não significa que todos os seus eleitores sigam a mesma orientação. A decisão individual de cada votante pode divergir da posição pública do candidato em quem ele votou no primeiro turno.

Para reverter a desvantagem inicial, Lula precisava conquistar votos de eleitores que haviam escolhido outros candidatos, receber apoio de pessoas que antes votaram em Flávio ou ampliar sua capacidade de mobilização entre os eleitores que não compareceram anteriormente.

O que os números mostram

De acordo com os números apresentados no levantamento, Lula passou de aproximadamente 53,9 milhões de votos no primeiro turno para 64,2 milhões no segundo, um aumento superior a 10 milhões. Flávio, por sua vez, passou de cerca de 56,1 milhões para 59,8 milhões, crescimento de aproximadamente 3,7 milhões.

A diferença entre os candidatos, portanto, mudou de uma vantagem de aproximadamente 2,2 milhões para Flávio para uma vantagem de cerca de 4,4 milhões para Lula.

Essa mudança não pode ser atribuída automaticamente a um único grupo de eleitores. Para identificar de onde vieram os votos adicionais de cada candidato, seria necessário cruzar os resultados por município e seção eleitoral com dados de comparecimento, além de pesquisas específicas sobre a migração de votos. Os resultados agregados, isoladamente, não permitem saber como cada eleitor votou nos dois turnos.

A explicação mais consistente exige considerar conjuntamente a redistribuição dos votos das candidaturas eliminadas, a mobilização de eleitores que não compareceram no primeiro turno e as mudanças de preferência entre os dois finalistas. Sem dados adicionais, não é possível determinar com precisão qual desses fatores teve maior peso na vitória de Lula.

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