Moradores de diferentes bairros do Rio de Janeiro e da Região Metropolitana denunciam que facções criminosas passaram a controlar a oferta de internet em comunidades dominadas pelo tráfico de drogas. Segundo relatos e investigações da Polícia Federal (PF), criminosos cortam cabos e incendeiam equipamentos de operadoras regularizadas para impedir a prestação do serviço e obrigar moradores e comerciantes a contratar provedores autorizados pelos grupos.
As denúncias vieram à tona após a Operação Backbone, deflagrada pela Polícia Federal na segunda-feira (19), para investigar a exploração ilegal de serviços de internet em áreas sob influência do Comando Vermelho. De acordo com as apurações, empresas concorrentes são impedidas de atuar, enquanto provedores ligados à organização criminosa passam a controlar o atendimento e a cobrança pelo serviço.
No Engenho da Rainha, na Zona Norte do Rio, um comerciante relatou que operadoras tradicionais foram afastadas da região após terem seus cabos cortados e sofrerem dificuldades para realizar reparos na rede.
“Antes a gente tinha a Claro, tinha várias outras operadoras que prestam serviço de internet e telefonia regularizadas. Essas operadoras foram boicotadas pelo tráfico”, afirmou.
Segundo o comerciante, os moradores passaram a depender de um provedor conhecido como Oliver Net. Ele disse que o serviço está fora do ar há mais de um mês e que os clientes não têm a quem recorrer para resolver o problema.
Em Benfica, também na Zona Norte, os pacotes de internet custam entre R$ 104 e R$ 154, conforme a velocidade contratada. Há ainda relatos de multa de R$ 20 para pagamentos realizados após o vencimento.
Outro morador afirmou que os consumidores enfrentam cobranças adicionais para instalação de roteadores, substituição de equipamentos e manutenção, além de não poderem escolher livremente a empresa responsável pelo serviço.
O problema também foi denunciado em Itaboraí, na Região Metropolitana. Moradores dos bairros São Joaquim e Três Pontes relataram que os valores aumentaram nos últimos anos e que a contratação de outras operadoras não é permitida. Um deles disse que pagava R$ 70 pela conexão e agora desembolsa R$ 120 por um serviço que considera de baixa qualidade.
Operações policiais investigam exploração ilegal
Nesta terça-feira (20), a Polícia Militar realizou uma operação na Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio, comunidade dominada pelo Comando Vermelho. A ação teve como objetivos combater o tráfico de drogas, o roubo de veículos e a exploração irregular do serviço de internet. Cinco pessoas foram presas, e os policiais apreenderam dois fuzis e drogas.
Na segunda-feira (19), a Polícia Federal também realizou uma operação em comunidades como os complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão. As investigações apontam que integrantes da organização criminosa cortavam cabos de empresas concorrentes, incendiavam caixas de distribuição e intimidavam equipes técnicas para impedir a manutenção dos equipamentos.
Segundo a PF, o esquema obrigaria moradores e comerciantes a contratar provedores autorizados pela facção. Em troca, empresas pagariam taxas mensais para operar nas áreas controladas pelo grupo.
A operação terminou com 20 pessoas presas, entre elas Márcia Gama Nepomuceno, mãe do rapper Oruam, e Lucas Nepomuceno, irmão do artista. Também foi expedido mandado de prisão contra Marcinho VP, pai do rapper e apontado pelas investigações como uma das lideranças do Comando Vermelho, que já está preso em uma penitenciária federal. Outro alvo foi o vereador Fábio Silva (Podemos), preso em Londrina, no Paraná.
Empresas e autoridades se manifestam
Em nota, a Conexis Brasil, entidade que representa empresas de telecomunicações, afirmou que a restrição de acesso de equipes técnicas a determinadas regiões dificulta a instalação e a manutenção dos serviços. A entidade também destacou os riscos enfrentados pelos profissionais e defendeu ações integradas de segurança pública.
A Polícia Militar informou que realiza policiamento nas áreas citadas e prende suspeitos quando flagrados em atividades criminosas. A corporação ressaltou que esquemas de monopólio ilegal de internet costumam ocorrer de forma velada e orientou as vítimas a registrar ocorrências nas delegacias.
Já a Polícia Civil afirmou que atua no combate a organizações criminosas e milícias que tentam monopolizar a prestação de serviços. Segundo a instituição, as investigações buscam identificar lideranças, mapear estruturas financeiras e operacionais e combater a extorsão contra moradores e empresas.
Os relatos apontam que o controle ilegal da internet vai além da disputa comercial: moradores afirmam enfrentar interrupções no serviço, cobranças adicionais e falta de alternativas, em um cenário no qual o medo de represálias dificulta a formalização das denúncias.
