Documentos, mensagens e um vídeo divulgado recentemente voltaram a levantar questionamentos sobre as declarações do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a respeito de sua relação com Daniel Vorcaro, ex-presidente do Banco Master.
As novas informações também aumentaram a pressão sobre autoridades que defenderam publicamente o ministro nos últimos meses, entre elas os ministros Gilmar Mendes e Flávio Dino, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo informações publicadas pela Gazeta do Povo nesta quarta-feira (23) , O episódio mais recente ocorreu no domingo (20), quando o jornal O Globo divulgou imagens de agosto de 2025 que mostram Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, desembarcando de um jatinho ligado a Vorcaro no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.
Em abril, após as primeiras reportagens sobre viagens no avião, o gabinete de Moraes havia negado que o ministro tivesse viajado em aeronaves de Vorcaro. “O ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de Fabiano Zettel”, afirmou a nota.
Após a divulgação do vídeo, o escritório Barci de Moraes confirmou que o ministro acompanhou a esposa em determinados voos da Prime Aviation, empresa ligada a Vorcaro. Segundo o escritório, as viagens ocorreram sem a presença do banqueiro. As negativas anteriores de Moraes não foram justificadas.
Mensagens atribuídas a Vorcaro
Outra questão envolve mensagens enviadas por Vorcaro antes de sua prisão. Em março, quando parte das conversas foi divulgada, Moraes negou ser o destinatário das mensagens e apresentou uma análise técnica para sustentar essa versão.
Um relatório da Polícia Federal divulgado em setembro, porém, reuniu outros elementos. Os investigadores reconstruíram as comunicações a partir do cruzamento de milhares de registros encontrados no celular de Vorcaro, incluindo horários de criação de anotações, capturas de tela e mensagens de visualização única enviadas pelo WhatsApp.
A PF identificou um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA” e encontrou mensagens nas quais Vorcaro pedia ajuda para conter medidas da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, além de consultar o interlocutor sobre a possibilidade de deixar o país.
No dia de sua prisão, segundo o relatório, Vorcaro também perguntou se o interlocutor havia conseguido obter informações ou impedir alguma providência.
As respostas de Moraes não foram recuperadas, e o ministro continua contestando as conclusões da PF. O relatório, entretanto, apresenta os rastros digitais como elementos que, segundo os investigadores, apontariam para a comunicação entre os dois.
Contrato de R$ 131 milhões
O relatório da PF também trouxe informações sobre o contrato de R$ 131 milhões firmado entre o escritório de Viviane Barci de Moraes e o Banco Master.
Segundo os investigadores, o próprio Alexandre de Moraes participou da elaboração do documento. Metadados de duas versões da minuta identificaram o ministro como responsável por alterações finais, sendo uma delas realizada depois que Vorcaro devolveu o documento revisado.
Após a divulgação dessas informações, o escritório reconheceu que Moraes havia sido consultado. A justificativa apresentada foi de que a participação do ministro teria se limitado à verificação de eventuais impedimentos legais para a contratação.
Moraes havia atribuído anteriormente o negócio exclusivamente à atividade profissional de sua família. Em manifestação escrita apresentada ao STF em 15 de setembro, segundo o texto, ele não esclareceu as alterações do contrato registradas em seu nome.
Defesas de Moraes
As novas revelações também repercutiram sobre as manifestações de apoio feitas por integrantes do STF e de outras instituições.
Flávio Dino defendeu Moraes durante uma sessão da Corte e criticou a condução do caso por Edson Fachin, afirmando que ela poderia abrir uma “avenida de autoritarismo”. Dino também defendeu que as suspeitas envolvendo Moraes fossem analisadas juntamente com acusações relacionadas a André Mendonça. Ao final, pediu vista do processo, impedindo naquele momento uma decisão sobre a abertura da investigação contra Moraes.
Gilmar Mendes, por sua vez, direcionou críticas a Mendonça, relator do caso relacionado ao Banco Master, e atribuiu motivação eleitoral à investigação. Em outra ocasião, chamou o colega de “pixuleco” e “boneco eleitoral”.
Em abril, quando uma CPI propôs o indiciamento de Moraes e outras autoridades por suspeitas relacionadas ao Banco Master, Gilmar classificou a iniciativa como uma “proposta tacanha” e um “erro histórico”.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, também havia arquivado, em dezembro de 2025, uma representação contra Moraes e Viviane Barci, sob o argumento de “absoluta ausência de lastro probatório mínimo” para as acusações apresentadas naquele momento.
Em 1º de setembro, após a divulgação de um relatório com novas mensagens atribuídas a comunicações entre Moraes e Vorcaro, Gonet pediu a anulação do material, alegando que Mendonça teria determinado investigação contra outro ministro sem a autorização necessária.
Lula e a relação com Moraes
A situação também passou a ser considerada no contexto eleitoral do governo Lula. Segundo relatos de veículos de comunicação mencionados no texto, integrantes da campanha do presidente avaliam que a proximidade com Moraes pode trazer impactos para a candidatura à reeleição e passaram a defender uma tentativa de distanciamento.
Lula, no entanto, já havia feito elogios públicos ao ministro e destacado sua atuação nas eleições de 2022 e em processos relacionados à suposta tentativa de golpe de Estado.
Agora, segundo o texto, o presidente passou a afirmar de forma mais geral que eventuais irregularidades cometidas por Moraes devem ter consequências.