Empresários investigados na Operação Sem Desconto, que apura um esquema de descontos associativos não autorizados em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), aparecem em gravações de câmeras de segurança discutindo dinheiro, patrimônio e a possibilidade de retomar os negócios após terem sido alvo de uma operação da Polícia Federal.
As imagens, obtidas pelo jornal Estadão, foram registradas em 22 de maio de 2025, exatamente um mês depois da deflagração da Operação Sem Desconto. Os vídeos, segundo a publicação, mostram conversas ocorridas na cozinha e na sala de uma residência em Alphaville, em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo.
O imóvel pertence a Anderson Cordeiro Vasconcelos, um dos investigados. De acordo com o Estadão, ele recebeu em casa Igor Dias Delecrode, outro empresário investigado, acompanhado da namorada. As conversas teriam sido registradas por câmeras que permaneciam ligadas durante todo o dia.
Conversas sobre dinheiro e patrimônio
Em um dos trechos divulgados pelo jornal, Anderson fala sobre a possibilidade de deixar as associações que controlava e abrir mão de sua participação.
Segundo a gravação, ele também relata ter sido questionado sobre a possibilidade de vender sua parte no negócio. Anderson teria respondido que não pretendia fazer isso e afirmou que preferia abrir mão dos negócios a continuar enfrentando os efeitos das investigações.
Em outro momento, Igor Delecrode comenta sobre dificuldades para movimentar recursos que estavam aplicados. Na conversa, ele afirma que pretendia transformar parte do dinheiro em “dólar digital”, expressão usada para se referir a ativos digitais denominados em dólar.
O material divulgado pelo Estadão também mostra os empresários falando sobre patrimônio adquirido antes das investigações. Anderson menciona um apartamento comprado em conjunto com outros investigados e afirma que tentaria preservar o imóvel.
Expectativa de retomada das atividades
Ainda segundo o conteúdo das gravações, Anderson demonstra expectativa de que o negócio das associações pudesse voltar a funcionar no futuro.
As associações são tratadas nas conversas como um empreendimento do grupo. Os investigadores apuram justamente a atuação de empresários que teriam controlado entidades responsáveis por descontos diretamente nos benefícios de aposentados e pensionistas.
A Operação Sem Desconto foi deflagrada em abril de 2025 pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU). As investigações apontaram descontos associativos estimados em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. O valor corresponde ao total de mensalidades descontadas no período sob investigação e não significa, por si só, que todo o montante tenha sido comprovadamente desviado.
Uma auditoria da CGU entrevistou 1.273 beneficiários e constatou que 97,6% disseram não ter autorizado os descontos questionados. Outros 95,9% afirmaram não participar das associações responsáveis pelas cobranças.
Empresários são suspeitos de controlar associações
Anderson Cordeiro e Igor Delecrode estão entre os empresários investigados pela Polícia Federal. Eles teriam participado da administração de entidades que receberam valores provenientes de descontos realizados diretamente nos benefícios do INSS.
As investigações também apuram possíveis transferências de recursos para empresas ligadas aos investigados e para pessoas próximas a eles, além de suspeitas de ocultação e dilapidação patrimonial.
Em fases posteriores da Operação Sem Desconto, a Polícia Federal e a CGU passaram a investigar crimes como inserção de dados falsos em sistemas oficiais, organização criminosa, estelionato previdenciário, corrupção e ocultação de patrimônio.
Fraudes em autorizações e reconhecimento facial
A investigação identificou ainda suspeitas de utilização de documentos e mecanismos fraudulentos para cadastrar beneficiários em associações.
Segundo informações divulgadas pela CGU e pela imprensa, uma das linhas de investigação envolve o uso irregular de sistemas de reconhecimento facial para validar supostas adesões. Em auditorias, foram encontrados casos em que beneficiários afirmaram não reconhecer as autorizações utilizadas para justificar os descontos.
A CGU também identificou situações em que os documentos apresentados pelas entidades não apresentavam os requisitos necessários para comprovar a autorização dos beneficiários.
Carros de luxo e outros bens apreendidos
A investigação também alcançou o patrimônio dos empresários. Na primeira fase da operação, a Polícia Federal determinou o sequestro de bens avaliados em mais de R$ 1 bilhão, além de cumprir mais de 200 mandados de busca e apreensão.
Entre os bens apreendidos estavam veículos de alto valor. O material divulgado pelo Estadão relata que uma frota de carros de luxo ligada aos chamados “golden boys” foi alvo das medidas judiciais.
Os investigadores também analisam movimentações financeiras, aquisição de bens e possíveis transferências de recursos entre empresas e pessoas relacionadas ao grupo.
Defesa contesta gravações
Os advogados que representam Anderson Cordeiro, Igor Delecrode e Felipe Macedo afirmaram ao Estadão que desconhecem a existência, a autenticidade e a integridade das gravações divulgadas.
A defesa também afirmou que, caso os vídeos existam, eles teriam sido obtidos de maneira ilícita e criminosa. Os advogados ressaltaram ainda que os bens dos investigados estão bloqueados pela Justiça e que seus clientes permanecem à disposição das autoridades.
As investigações sobre o esquema continuam. Em maio de 2026, uma nova fase da Operação Sem Desconto cumpriu 31 mandados de busca e apreensão e determinou oito medidas cautelares de monitoramento eletrônico, com o objetivo de aprofundar a apuração sobre organização criminosa, estelionato previdenciário e ocultação e dilapidação patrimonial.
