Conversas extraídas pela Polícia Federal do celular do banqueiro Daniel Vorcaro mostram que o ex-senador Chiquinho Feitosa, ex-cunhado do ministro Gilmar Mendes, tratou com ele sobre processos que estavam em análise no Supremo Tribunal Federal (STF). Os diálogos ocorreram entre abril e novembro de 2024.
À época, Chiquinho era casado com Guiomar Feitosa, irmã de Gilmar Mendes. O casal se divorciou em novembro de 2025.
Segundo as mensagens obtidas pela reportagem, Chiquinho conversou com Vorcaro sobre dois processos específicos: um envolvendo precatórios da Usina Agroindustrial Tabu, na Paraíba, adquiridos por fundos ligados ao Banco Master, e outro relacionado às regras para abertura de vagas em cursos de Medicina no Brasil.
Apesar das tratativas, Gilmar Mendes afirmou que seus votos nos processos mencionados não favoreceram os interesses do Banco Master.
Contrato de R$ 500 mil mensais
Inicialmente, Chiquinho Feitosa negou ter trabalhado para uma empresa ligada a Daniel Vorcaro. Após ser questionado sobre a Super Empreendimentos, admitiu ter prestado serviços por “durante um curto período”.
Segundo ele, na época a empresa era considerada “idônea” e “atuava em diversos segmentos”. Mensagens analisadas pela reportagem indicam que o contrato previa pagamentos de R$ 500 mil mensais.
Em uma conversa enviada a Vorcaro em 11 de setembro de 2024, Chiquinho tratou do contrato e das negociações relacionadas aos interesses do banqueiro:
“CONTRATO: Uma pessoa minha, já se entendeu com o Léo, e mandou o contrato para assinarmos e emitir a nota do dia 15, conforme combinamos! Preciso de orientação no que ficou pendente. Se você quiser, posso somar o remanescente ao valor da assessoria desse mês e tirar uma só nota. No mais, para lhe dizer que estou 100% dedicado aos nossos assuntos, sempre com muita atenção, cuidado e responsabilidade conforme você me recomendou”
Em outra conversa, o empresário Leonardo Palhares perguntou a Vorcaro sobre o contrato:
“E sobre o outro contrato que estou tratando (Chiquinho), me confirma se é isso que você combinou, por favor: A CONTRATANTE pagará ao CONTRATADO em remuneração de seus serviços o valor mensal de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais) LÍQUIDO. Na primeira parcela será adicionado um honorário extra no valor de R$ 800.000,00 (oitocentos mil reais) LÍQUIDO que deverá ser pago no dia 15 de setembro de 2024”
Vorcaro teria confirmado a contratação. Na sequência, Palhares perguntou:
“Blz. Super do nosso lado?”
Vorcaro respondeu:
“Ok”.
A Super Empreendimentos, segundo a Polícia Federal, seria utilizada para lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.
Em outra conversa, de 2 de outubro de 2024, Fabiano Zettel enviou uma lista de pagamentos e incluiu:
“500k – F&A Super valor mensal (Chiquinho)”.
Chiquinho é proprietário da F&A Consultoria em Gestão Empresarial e Logística, empresa sediada em Fortaleza (CE), cujo objeto social inclui atividades de consultoria em gestão empresarial.
IMAGEM: Mensagens de Fabiano Zettel para Daniel Vorcaro sobre possíveis pagamentos feitos pelo banqueiro a um “filme” e à Chiquinho Feitosa. Foto: Reprodução Estadão / Polícia Federal
Conversas envolveram processos no STF
Um dos assuntos tratados por Chiquinho com Vorcaro envolvia precatórios da Usina Agroindustrial Tabu, da Paraíba. Os créditos haviam sido adquiridos por fundos do Banco Master.
Segundo o posicionamento de Gilmar Mendes, no processo relacionado ao caso, o ministro votou contra o pagamento do precatório no sentido defendido pela União.
Em outro processo, a Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) 81, Gilmar Mendes foi relator de uma discussão sobre a exigência de chamamento público do governo federal para a criação de cursos de Medicina, prevista na legislação do Mais Médicos.
O caso interessava ao Banco Master porque um fundo ligado à instituição, o Calêndula, havia financiado e mantinha participação na Associação Educacional Luterana do Brasil (Aelbra), mantenedora da Universidade Luterana do Brasil.
Em 17 de abril de 2024, Chiquinho enviou mensagem a Vorcaro afirmando que já havia conversado com Gilmar:
“Vamos jantar”
Dois dias depois, os dois também conversaram sobre a participação de Vorcaro em um evento em Londres, onde, segundo Chiquinho, o banqueiro encontraria Gilmar.
Encontro com advogados do Banco Master
As mensagens também mostram que Chiquinho teria intermediado um encontro entre Gilmar Mendes e advogados ligados ao Banco Master.
Em 11 de abril de 2024, Vorcaro chamou Chiquinho de:
“Grande comandante”
Na sequência, Chiquinho encaminhou o contato de Carla Maria Moreira Sampaio Zottmann, servidora do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que atuou cedida ao gabinete de Gilmar no STF.
Depois, Chiquinho encaminhou a Vorcaro uma mensagem cujo autor não foi identificado:
“Não sei quanto tempo o Ministro terá, mas se for possível o roteiro abaixo. seria ótimo: Eu iria sozinho de 18 até 18:30 e de 18:30 até 19, entrariam duas pessoas para se juntarem à reunião: Andre Krutchevsky – diretor juridico banco master. Bruno Bianco- assessor jurídico WTL (sigla do escritório de Bianco)”
Segundo a reportagem, o encontro ocorreu.
Em 18 de abril, Chiquinho voltou a falar com Vorcaro sobre Bruno Bianco:
“Oi, Daniel! Bom dia! Por aqui, tudo bem! As coisas acontecendo dentro do esperado. Darei informações a você e o Bianco ainda hoje!”
Mais tarde, afirmou:
“Em quanto (sic) ao outro assunto, a conversa do Bianco ficou perfeita c o Gilmar”
Vorcaro respondeu:
“Que otimo”
E Chiquinho acrescentou:
“Já já vou ligar p o Bianco”
Posicionamento de Gilmar Mendes
Gilmar Mendes afirmou que não tinha conhecimento das tratativas entre Chiquinho e Daniel Vorcaro e que não responde por relações privadas ou profissionais de um ex-parente.
“O Ministro não teve conhecimento de qualquer tratativa entre ele (Chiquinho Feitosa) e Daniel Vorcaro, não foi por ele procurado sobre os assuntos mencionados e não responde por relações privadas ou profissionais de ex-parente”.
O ministro confirmou, porém, ter recebido advogados do Banco Master em audiência no STF e ressaltou que o encontro ocorreu nas dependências da Corte.
“A audiência ocorreu em 11 de abril de 2024, às 18h, no gabinete do Ministro, no Supremo Tribunal Federal, e contou com a presença dos advogados do Banco Master. Foi realizada na sede do Tribunal, em ambiente institucional, e não em espaço privado.”
Segundo Gilmar, a audiência tratou de uma causa do setor sucroalcooleiro, o ARE 1327995, de relatoria do ministro Edson Fachin.
O ministro também afirmou:
“Em nenhum desses processos o Ministro votou em sentido favorável aos interesses apontados pela reportagem — inclusive após a audiência mencionada.”
Chiquinho nega vínculo direto com o Banco Master
Procurado pelo Estadão, Chiquinho Feitosa afirmou que conheceu Daniel Vorcaro no período registrado nas mensagens, mas negou ter intermediado encontros entre funcionários do Banco Master e Gilmar Mendes.
Sobre Bruno Bianco, declarou:
“Em relação ao Bruno Bianco, desconheço que ele fosse empregado do Master. Quando o Daniel me passou o número dele, ele já era meu amigo. Ele foi AGU, é empresário e advogado de várias empresas e bancos. Uma pessoa que eu costumo conversar para trocar ideias.”
Sobre a Aelbra, afirmou:
“Não sei o que conversamos a época em relação a esse assunto. No mais, o que falo na mensagem relatada é sobre a minha agenda de compromissos naquele específico dia. Mostrando que estava ocupado”
Chiquinho também disse:
“Não sei o que conversamos a época em relação a esse assunto. No mais, o que falo na mensagem relatada é sobre a minha agenda de compromissos naquele específico dia. Mostrando que estava ocupado”
Sobre a contratação, afirmou:
“Tive um contrato de consultoria com a Super Empreendimentos durante um curto período. À época uma empresa idônea que atuava em diversos segmentos, e despertava interesse no mercado”.
A respeito do coquetel ligado ao seminário do IDP, declarou:
“Sobre o referido coquetel, era um evento paralelo ao seminário do IDP, a exemplo de tantos outros. Do meu conhecimento o organizador e patrocinador era a UniBrasil e a Escola da Magistratura. O nome do Master estava figurando no convite. Eu sugeri de forma despretenciosa que retirasse o nome do banco, em virtude da própria natureza do evento.”
Bruno Bianco também se manifesta
Bruno Bianco afirmou que é advogado independente e que, no caso citado, representava clientes de seu próprio escritório em uma discussão jurídica que também interessava a outras partes.
Segundo ele, sua atuação incluiu atividades próprias da advocacia, como despachos com magistrados e apresentação de memoriais.
Bianco afirmou ainda que não integrou os quadros do Banco Master e não exerceu cargo ou função na instituição.
Sobre o processo mencionado, declarou que a tese jurídica defendida “por unanimidade, não foi acolhida pelo Tribunal”.
Outros pagamentos citados nas mensagens
As conversas analisadas pela reportagem também mencionam Chiquinho em uma lista de pagamentos de 27 de janeiro de 2025.
Fabiano Zettel escreveu:
“Pacelli, Bellini e Chiquinho – uns 2M”
A mensagem também citava Eugênio Pacelli, advogado de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, e Belline Santana, ex-chefe de supervisão do Banco Central.
Segundo a reportagem, Pacelli não é investigado. A defesa de Santana afirmou que ele foi contratado por Leonardo Palhares para um projeto social de inclusão de jovens no mercado financeiro e que, em 2023, quando ocorreu a contratação, não sabia da relação de Palhares com o Banco Master.
IMAGEM: Conversa entre Leonardo Palhares e Daniel Vorcaro sobre contrato com Chiquinho Feitosa. Palhares pede aval de banqueiro para autorizar pagamento de R$ 500 mil por mês a então cunhado de Gilmar Mendes. Foto: Reprodução/Polícia Federal