Relatório da Polícia Federal reproduz conversa em que banqueiro rejeita participação de Antonio Rueda e associa decisão à possível reação de Alexandre de Moraes; documento afirma que programação era alinhada “de acordo com interesses de ‘Alexandre’”
Um diálogo encontrado pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro revela novos detalhes sobre os bastidores da organização de um evento jurídico em Londres e a influência que, segundo as próprias mensagens, seria atribuída ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na definição dos participantes.
Em conversa de 18 de julho de 2025, Ana Matos, responsável pela organização do evento, pergunta a Vorcaro sobre a possibilidade de incluir Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil, como moderador de um dos painéis.
Na mensagem, ela explica que Marcos Pereira, deputado federal e presidente do Republicanos, havia sido cogitado para a função, mas declinara.
Vorcaro rejeita imediatamente a possibilidade de Rueda:
“Rueda nao ne”
Na sequência, é ainda mais enfático:
“De jeito nenhum”
E explica sua reação fazendo referência a “Alexandre”:
“Alexandre morre se vc fizer isso”
Segundos depois, acrescenta:
“Alias nos mata”
Ana Matos responde em tom aparentemente jocoso:
“Ele manda colocar tornozeleira”
A sequência consta de imagem incorporada ao relatório da Polícia Federal.
PF diz que conversa tratava dos “interesses de Alexandre”
Um detalhe do próprio relatório chama atenção.
Ao descrever oficialmente a conversa, a Polícia Federal intitulou a imagem da seguinte maneira:
“DANIEL VORCARO alinha com ANA MATOS sobre participação de ‘Rueda’ de acordo com interesses de ‘Alexandre’”
A descrição policial reforça que os investigadores não trataram a referência a Alexandre como elemento desconectado da decisão sobre a composição do evento.
Ainda assim, o diálogo não mostra Alexandre de Moraes determinando diretamente que Rueda fosse excluído. O que o documento comprova é que Vorcaro rejeitou o nome e justificou sua posição mencionando a reação que atribuía a “Alexandre”.
“Alexandre reclamou MUITO do evento”
A história não termina no veto a Rueda.
O próprio relatório registra que, apenas três dias depois, em 21 de julho de 2025, Vorcaro voltou a conversar com Ana Matos sobre o encontro de Londres.
Segundo a PF, o banqueiro afirmou que o ministro Alexandre de Moraes:
“reclamou MUITO do evento”
A proximidade temporal entre os episódios aumenta a relevância das mensagens e levanta questionamentos sobre o grau de interferência que Vorcaro atribuía ao ministro na elaboração da programação.
Uma pergunta que o relatório deixa no ar
O episódio envolvendo Rueda ganha dimensão política porque ele não era apenas mais um possível participante.
Rueda comandava nacionalmente o União Brasil, uma das principais legendas do país, enquanto Vorcaro era uma figura de grande trânsito entre empresários, políticos e autoridades.
O que chama atenção, portanto, é a aparente preocupação demonstrada pelo banqueiro diante da simples possibilidade de colocar o presidente do União Brasil como moderador.
Por que Vorcaro acreditava que a presença de Rueda provocaria uma reação tão forte de Alexandre de Moraes?
O trecho analisado pela Polícia Federal não oferece resposta para essa pergunta.
Mensagens revelam bastidores de acesso a autoridades
O episódio também precisa ser analisado dentro de um conjunto muito maior de mensagens encontradas no telefone de Vorcaro.
O relatório da PF registra contatos e articulações envolvendo integrantes dos três Poderes e autoridades de órgãos estratégicos do Estado.
Em outro trecho do mesmo documento, por exemplo, aparecem conversas sobre o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Em 3 de abril de 2024, Fábio Faria encaminhou a Vorcaro uma mensagem recebida de um terceiro não identificado perguntando:
“O que acha de eu convidar o DPF Andrei”
Logo depois, o mesmo interlocutor escreveu:
“Aí fechamos o PGR e o DPF”
Fábio respondeu:
“Acho ótimo”
“Pode convidar”
Minutos depois, Faria encaminhou nova mensagem:
“Podem entrar em contato lá na PF. Ele aceitou”
A PF registra expressamente que a mensagem original sobre “fechar” o PGR e o DPF partiu de interlocutor não identificado e foi encaminhada por Fábio Faria a Vorcaro. relatorio_pf_vorcaro_moraes__01092026.pdf
Despesas do evento também aparecem nas mensagens
Outro diálogo mostra uma pessoa que se apresenta como assistente do diretor-geral da PF perguntando sobre as condições para participação no evento de Londres.
Entre as dúvidas estava:
“algum custo (hospedagem, passagem) é coberto pelos organizadores?”
A resposta de “Marcio Conjur”, reproduzida no relatório, foi:
“Todas as despesas bancadas por nós”
relatorio_pf_vorcaro_moraes__01092026.pdf
O documento ainda registra que, em julho de 2025, Ana Matos disse a Vorcaro que “O Andrei PF precisa de um Convite formal para aceitar Londres”, perguntando se o Grupo Voto poderia encaminhá-lo. Vorcaro autorizou. relatorio_pf_vorcaro_moraes__01092026.pdf
O que precisa ser esclarecido
As mensagens não demonstram, por si só, que Alexandre de Moraes tenha pessoalmente ordenado a retirada de Antonio Rueda da programação, nem que qualquer autoridade tenha praticado irregularidade.
Elas revelam, porém, algo jornalisticamente relevante: Vorcaro aparentemente considerava a reação atribuída a Moraes ao decidir quem poderia ou não integrar um evento que reuniria algumas das figuras mais importantes da República.
No caso de Rueda, a frase registrada é particularmente contundente: “De jeito nenhum. Alexandre morre se vc fizer isso. Alias nos mata”.
E três dias depois, segundo o relatório da própria PF, Vorcaro dizia que Alexandre de Moraes havia “reclamado MUITO do evento”.