O proprietário e presidente da Voepass, José Luiz Felício Filho, admitiu à Polícia Federal que tinha conhecimento de uma suposta “cultura de omissão” de falhas técnicas dentro da companhia aérea. A revelação consta do relatório final da investigação sobre a queda do voo 2283, acidente que matou 62 pessoas em Vinhedo, no interior de São Paulo.
Segundo a investigação, Felício afirmou ter sido alertado pessoalmente por diretores da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) sobre a existência de pilotos que evitavam registrar problemas nos diários de bordo para impedir que aeronaves fossem retiradas de operação.
Para a PF, a falta de registros de manutenção contribuiu para comprometer a segurança dos voos em benefício da disponibilidade da frota.
Felício e outros 15 profissionais foram indiciados por atentado contra a segurança do transporte aéreo, com agravante relacionado à morte das 62 vítimas.
Dono reconheceu problemas na aeronave
Em depoimento prestado à PF em 4 de agosto, Felício também reconheceu que havia problemas na aeronave que acabou caindo.
“A aeronave não deveria estar naquela condição, mas também não deveria ter sido despachada para aquela rota”, afirmou.
O ATR-72 havia decolado com falhas conhecidas no sistema de degelo para uma região que apresentava previsão de formação de gelo severo.
De acordo com o relatório, Felício, que tem formação como piloto, conhecia as limitações do modelo ATR-72 em condições de gelo e recebia oficialmente notificações da Anac sobre irregularidades na operação da empresa.
A PF, entretanto, afirma que o empresário tentou afastar a alta direção da responsabilidade pelas decisões tomadas pelos setores operacionais da companhia.
Comandante não tinha experiência exigida
Outro ponto destacado pela investigação envolve o comandante Danilo Romano, que estava no controle da aeronave no momento do acidente.
Segundo o relatório, o regulamento interno da própria Voepass exigia que pilotos tivessem pelo menos mil horas de voo em aeronaves ATR para assumir o comando. Romano, porém, teria sido promovido sem possuir experiência anterior no modelo.
Depoimentos de outros pilotos indicaram que a promoção ocorreu durante a gestão do piloto-chefe Rafael Gimenez Rodrigues, que também era responsável pelo treinamento de profissionais da companhia.
Na avaliação da PF, a promoção antecipada colocou um piloto sem experiência específica no ATR no comando de uma aeronave comercial.
A investigação aponta ainda que essa falta de experiência teria contribuído para a adesão do comandante às práticas de omissão de falhas identificadas dentro da empresa.
O voo 2283 caiu em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP), durante uma rota entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). As 62 pessoas que estavam a bordo morreram no acidente.
