A alta dos combustíveis pode se transformar em um fator de desgaste político para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) às vésperas do ciclo eleitoral. Com o petróleo pressionado por fatores externos e o encerramento gradual de medidas de contenção de preços, a equipe econômica busca evitar novos reajustes nas bombas e seus impactos sobre a inflação e o custo de vida.
Nos últimos meses, o governo adotou uma série de subsídios e desonerações, principalmente voltados ao diesel, com o objetivo de reduzir os efeitos imediatos da alta dos combustíveis para os consumidores.
O diesel passou a ser tratado como prioridade por causa de sua importância para o transporte de cargas, já que eventuais aumentos tendem a refletir nos preços de diversos produtos e serviços.
Apesar das medidas adotadas, o cenário internacional continua sendo um fator de preocupação. As recentes tensões geopolíticas impulsionaram a cotação do petróleo, que encerrou a quinta-feira (30/7) em torno de US$ 81 por barril, aumentando a volatilidade do mercado e reduzindo a previsibilidade para países importadores, como o Brasil.
Crise entre Irã e Estados Unidos amplia incertezas
A recente escalada das tensões entre Irã e Estados Unidos voltou a influenciar o mercado internacional de petróleo.
Segundo informações divulgadas:
- O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou o fim do acordo de cessar-fogo após uma nova escalada militar e ataques a navios petroleiros no Estreito de Ormuz;
- O republicano afirmou que o acordo perdeu validade diante das “hostilidades recentes”;
- O governo iraniano acusou os Estados Unidos de descumprirem o acordo de paz por meio de bombardeios e ameaças contínuas;
- As negociações já enfrentavam dificuldades, com o Irã afirmando que não manteria diálogo sob pressão militar;
- O aumento das tensões elevou as incertezas no mercado internacional de energia.
Diesel registra alta, apesar de recuo da gasolina
Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que, na semana passada, o preço médio da gasolina caiu 0,45%, enquanto o gás de cozinha registrou recuo de 0,12%.
Em contrapartida, o diesel S-10 apresentou alta média de 0,14%, interrompendo uma sequência de semanas de queda.
Especialistas avaliam que, embora os subsídios ajudem a reduzir os impactos no curto prazo, eles não eliminam a dependência do Brasil em relação às oscilações do mercado internacional.
Outro ponto de atenção é a Medida Provisória (MP) que mantém parte desses incentivos. O texto perde validade no início da campanha eleitoral, o que poderá aumentar a pressão sobre os preços caso não haja uma alternativa.
Segundo o professor de Economia da Strong Business School, Jarbas Thaunahy, os mecanismos adotados pelo governo funcionam apenas como um amortecedor temporário.
“Se o petróleo permanecer em alta e o câmbio continuar pressionado, os combustíveis podem seguir encarecendo, sobretudo caso as medidas de compensação fiscal sejam reduzidas ou encerradas. Se a medida provisória que subsidia os combustíveis perder vigência sem substituição, é provável que ocorra uma recomposição dos preços nas bombas, com impacto direto sobre a inflação e efeitos indiretos sobre transporte, logística e alimentos”, afirmou.
Combustíveis influenciam percepção da economia
Historicamente, os preços dos combustíveis têm impacto direto na percepção da população sobre a economia.
O aumento do diesel, por exemplo, eleva os custos do transporte de cargas, pressionando os preços de alimentos e outros produtos, o que contribui para a inflação.
Nos bastidores do governo, a avaliação é de que reajustes expressivos podem repercutir rapidamente na percepção do eleitorado. Além disso, categorias como a dos caminhoneiros costumam reagir de forma imediata aos aumentos, ampliando o potencial de desgaste político.
Para Jarbas Thaunahy, um cenário de inflação elevada durante o período eleitoral tende a dificultar o ambiente político para qualquer governo.
“Em geral, governos que enfrentam aceleração inflacionária durante campanhas eleitorais tendem a encontrar um ambiente político menos favorável, especialmente quando a alta atinge bens de consumo frequente, como combustíveis e alimentos”, destacou.
Medidas adotadas pelo governo
Entre as ações anunciadas para tentar conter a alta dos combustíveis estão:
- Subvenção ao diesel;
- Isenção de impostos federais sobre o biodiesel;
- Subvenção ao gás de cozinha;
- Subvenção ao querosene de aviação (QAV);
- Subvenção à gasolina.
Segundo o governo, as medidas possuem caráter temporário, com validade de dois meses a partir da publicação da portaria correspondente. A estratégia busca reduzir o impacto sobre os consumidores sem descumprir a legislação eleitoral, que restringe esse tipo de repasse em ano de eleições, além de preservar o equilíbrio das contas públicas.