O uso de montagens produzidas por inteligência artificial voltou ao centro do debate público após a retratação do deputado federal Rogério Correia (PT-MG) por uma publicação que associava o ex-presidente Jair Bolsonaro ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, com base em uma montagem gerada por IA sem correspondência com fatos concretos.
Como a retratação de Rogério Correia foi motivada?
A retratação foi publicada nessa terça-feira (17/2), em cumprimento a uma decisão judicial em caráter liminar. No texto, o deputado reconheceu que a postagem original, já removida, utilizou uma montagem digital para sugerir um encontro inexistente entre Jair Bolsonaro, Daniel Vorcaro e Roberto Campos Neto.
Segundo Rogério Correia, o conteúdo se baseou em materiais que circulavam amplamente nas redes sociais, mas ele admitiu que a imagem era gerada por inteligência artificial e não retratava um fato verdadeiro. O episódio reacendeu discussões sobre responsabilidade digital, desinformação e o dever de cautela de figuras públicas na internet. Veja a publicação do deputado:
Nota de Esclarecimento
— Rogério Correia (@RogerioCorreia_) February 17, 2026
Conforme já havia informado, a publicação realizada em 01/02/2026, por meio da minha conta na plataforma X (antigo Twitter), continha imagem produzida por inteligência artificial, na qual eram mencionados Daniel Vorcaro, Roberto Campos Neto e Jair Messias…
O que decidiu a Justiça no caso da montagem com Bolsonaro?
A decisão que levou à retratação foi assinada pela juíza Patrícia Coelho, da 7ª Vara Cível de Brasília, em 13 de fevereiro. Ela atendeu a um pedido de Jair Bolsonaro, que alegou dano à sua reputação, dado que, mesmo após a exclusão da postagem, a montagem havia alcançado milhares de pessoas e seguia repercutindo negativamente.
Na liminar, a magistrada determinou a retratação pública e impôs restrições para novas publicações sobre o tema, bem como multa por descumprimento. A ordem reforça a responsabilidade de agentes públicos e usuários de redes sociais na criação e no compartilhamento de conteúdos digitais potencialmente lesivos.
Quais foram as principais determinações judiciais ao deputado?
Além de exigir a manifestação pública de correção, a Justiça estabeleceu vedações objetivas ao uso e à difusão da montagem. Essas determinações buscam prevenir a repetição da conduta e sinalizar que o uso de imagens manipuladas por IA, quando atribuído a fatos inexistentes, pode gerar consequências civis relevantes:
- Retratação obrigatória em rede social, esclarecendo que a imagem era uma montagem de IA.
- Proibição de republicar, replicar ou divulgar a montagem com Bolsonaro, Campos Neto e Vorcaro.
- Vedação a reforçar a ideia de proximidade entre os três com base em registros irreais.
- Multa de R$ 10 mil para cada ato de descumprimento da decisão liminar.
Como montagens com inteligência artificial afetam a reputação pública?
O caso ilustra como conteúdos gerados por IA podem interferir na imagem de figuras públicas, sobretudo em ambiente de forte polarização política. Mesmo após a remoção da montagem, capturas de tela, repostagens e comentários mantiveram o assunto em circulação, ampliando o potencial de dano à honra.
Especialistas em comunicação e direito digital apontam que imagens manipuladas podem sugerir encontros ou fatos inexistentes, influenciando percepções do público. Nesse contexto, retratações e decisões judiciais funcionam como formas de reparação simbólica e como alerta para o uso responsável de tecnologias de geração de conteúdo.
Quais os impactos do caso na política?
O episódio ocorre em um momento em que o Brasil acompanha com atenção o avanço de ferramentas de inteligência artificial aplicadas à criação de imagens, textos e vídeos. No campo político, deepfakes e montagens passaram a integrar discussões sobre campanhas eleitorais, desinformação e proteção da honra de agentes públicos e privados.
Ferramentas de IA permitem a produção rápida de conteúdos convincentes, aumentando a dificuldade de distinguir registros reais de montagens e pressionando por regras mais claras, mecanismos de verificação e maior cautela de usuários e plataformas. Casos como o de Rogério Correia e Jair Bolsonaro tendem a orientar futuras decisões judiciais, influenciando a regulação e os limites do uso político de materiais criados por inteligência artificial.