A construção de estradas costuma ser associada à melhoria da mobilidade e à integração entre cidades, mas quando essas vias cortam áreas naturais, causam fragmentação de habitats e aumento de atropelamentos de animais silvestres, como ocorre hoje em diversas regiões da Califórnia.
Como funciona a ponte de fauna Wallis Annenberg na rodovia US-101?
A chamada ponte de fauna Wallis Annenberg é um ecoduto construído sobre a rodovia US-101, entre Calabasas e Westlake Village, na Califórnia. Diferentemente das pontes comuns, voltadas para carros ou pedestres, essa megaestrutura foi planejada para restabelecer a comunicação entre duas áreas verdes: as Montanhas de Santa Mônica e a Serra Madre.
Orçada em cerca de US$ 19 milhões (algo próximo de R$ 100 milhões), a obra é financiada pela Comissão de Transportes da Califórnia (CTC), por meio do Programa de Melhoria e Mitigação Ambiental. Quando concluída, prevista entre setembro e dezembro de 2026, deverá ser a maior ponte de fauna do mundo, praticamente “camuflada” na paisagem natural.
Como funciona o ecoduto ecológico sobre a rodovia US-101?
O funcionamento dessa megaestrutura ecológica se baseia em um conceito simples: para que os animais se sintam seguros, o ambiente precisa se parecer o máximo possível com o habitat original. Em vez de concreto exposto, grades e asfalto, o ecoduto será coberto por solo, vegetação nativa e um relevo cuidadosamente modelado, reduzindo luzes e ruídos da rodovia.
Imagens recentes da obra mostram um “caminho suspenso” que parece terminar no nada, o que é apenas temporário. Na fase final, a ligação com as margens da estrada será concluída com taludes, cercas direcionais e áreas vegetadas, formando um corredor ecológico para pumas, coiotes, cervos e espécies menores cruzarem a rodovia sem acessar diretamente a pista.
Quais são as principais características da ponte de fauna Wallis Annenberg?
Para cumprir sua função de reconectar ecossistemas fragmentados, o projeto da ponte incorpora elementos específicos de engenharia e ecologia. Esses recursos foram desenhados para tornar a travessia intuitiva para a fauna e minimizar o impacto visual e sonoro do tráfego intenso logo abaixo da estrutura:
- Superfície coberta por solo e plantas nativas, imitando a vegetação local;
- Relevo modelado para reproduzir a topografia das encostas e vales próximos;
- Cercas laterais de condução que direcionam a fauna até a travessia segura;
- Barreiras visuais e acústicas para reduzir ruídos e luzes da rodovia;
- Estrutura dimensionada para atender desde grandes mamíferos até pequenos répteis e anfíbios.
Por que a Califórnia investiu em uma ponte exclusiva para animais?
Dados recentes ajudam a explicar o investimento na ponte de animais da Califórnia. Segundo o 11º relatório “Atropelamentos: Um Desastre Prevenível”, da Universidade da Califórnia em Davis, quase 50 mil veados morrem anualmente em colisões com veículos, além de dezenas de pumas e milhares de outros animais silvestres, agravando o declínio de populações já ameaçadas pela perda de habitat.
O impacto também é econômico: em 2024, colisões com animais geraram mais de R$ 1 bilhão em prejuízos, somando danos a veículos, atendimentos médicos, interdições de pista e perdas ligadas à biodiversidade. O estudo indica que, em 2024, mais veados foram mortos por veículos do que por caçadores, tornando o trânsito um dos principais fatores de mortalidade para a fauna no estado. Veja imagens da ponte:
Quais benefícios a ponte ecológica Wallis Annenberg deve gerar?
Nesse cenário, o ecoduto sobre a rodovia US-101 surge como uma solução de longo prazo para conciliar infraestrutura viária e conservação da natureza. A expectativa é que, com a ponte ecológica Wallis Annenberg em funcionamento, acidentes diminuam progressivamente, reduzindo prejuízos e fortalecendo populações de espécies-chave para o equilíbrio dos ecossistemas locais:
- Redução de atropelamentos de fauna silvestre e de colisões graves para motoristas;
- Recomposição de corredores ecológicos fragmentados por estradas e urbanização;
- Economia de recursos públicos em longo prazo, com menos danos materiais e custos médicos;
- Fortalecimento de populações de pumas, coiotes e cervos, aumentando a variabilidade genética;
- Integração do fluxo de animais ao planejamento viário, e não apenas como efeito colateral do desenvolvimento.