A intensificação das relações entre China e América do Sul tem alterado o mapa do comércio internacional nas últimas décadas. A longa distância física entre os dois lados do planeta contrasta com a proximidade econômica construída especialmente por meio de investimentos em infraestrutura, energia e agricultura, entre os quais a chamada Ferrovia Bioceânica se destaca por ligar interesses chineses à logística brasileira e peruana e, de forma indireta, a todo o continente sul-americano.
O que é a Ferrovia Bioceânica e por que ela é estratégica?
A Ferrovia Bioceânica é um projeto de corredor ferroviário que pretende ligar um porto brasileiro no Atlântico a um porto peruano no Pacífico, encurtando o caminho entre a América do Sul e a Ásia, em especial a China. Seu objetivo central é oferecer uma alternativa às rotas marítimas tradicionais, reduzindo tempo e custos de transporte de cargas agrícolas e minerais.
Na proposta mais recente, o traçado prevê a interligação de Ilhéus (BA), na costa atlântica, ao porto de Chancay, no Peru, no Oceano Pacífico, construído com forte participação de investimentos chineses. A ferrovia atravessaria estados brasileiros como Bahia, Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Acre, formando um eixo logístico que conecta áreas centrais do agronegócio e da mineração ao corredor de exportação rumo ao Pacífico.
Como a Ferrovia Bioceânica altera o comércio entre China e América do Sul?
A lógica econômica da Ferrovia Bioceânica está diretamente ligada à diminuição de distâncias e prazos de entrega, hoje dominados por rotas via Canal do Panamá ou Cabo da Boa Esperança. Ao transferir parte do trajeto para o modal ferroviário até Chancay, o percurso marítimo até a Ásia seria significativamente reduzido, aumentando a competitividade dos produtos sul-americanos.
Estudos de viabilidade apontam a possibilidade de encurtar o tempo total de viagem para algo próximo de duas semanas, o que pode transformar a ferrovia em um corredor preferencial para grãos, minérios, carnes e outros produtos. A seguir, alguns efeitos esperados dessa rota no comércio internacional:
- Menor tempo de viagem, facilitando gestão de estoques e contratos de fornecimento;
- Redução de custos logísticos em relação a rotas marítimas longas ou congestionadas;
- Maior previsibilidade nas entregas, relevante para cadeias globais de valor;
- Diversificação de rotas, reduzindo dependência de canais e estreitos estratégicos.
Quais são os principais desafios para a construção da Ferrovia Bioceânica?
A geografia sul-americana é um dos maiores obstáculos, pois o traçado precisa atravessar a floresta amazônica e a Cordilheira dos Andes, exigindo túneis, pontes e obras de engenharia caras e complexas. Além disso, Brasil e Peru discutem alternativas de trajeto com impactos distintos sobre custos, altitudes, áreas atendidas e benefícios regionais.
O projeto enfrenta ainda questões financeiras de grande porte, licenciamento ambiental rigoroso para proteger a Amazônia e ecossistemas de alta montanha e necessidade de articulação política entre governos nacionais, regionais e investidores estrangeiros. A integração com portos, rodovias, armazéns e malhas ferroviárias existentes é outro ponto decisivo.
Com mais de 1,4 milhão de visualizações, o canal Urbana conta cada detalhe desse projeto:
Qual é o papel da China na Ferrovia Bioceânica?
A China atua como principal financiadora e articuladora da Ferrovia Bioceânica, por meio de grandes empresas estatais de infraestrutura e logística, alinhada à sua estratégia global de garantir acesso estável a matérias-primas. O porto de Chancay é visto como terminal estratégico do lado pacífico, concebido para se tornar um dos principais hubs de saída de cargas sul-americanas para o mercado asiático.
Países como Brasil, Peru, Chile e Venezuela passaram a ocupar posição central no abastecimento chinês de soja, minério de ferro, cobre, lítio e petróleo, e a ferrovia tende a reforçar essa interdependência. Ao consolidar um corredor bioceânico sob forte presença chinesa, o projeto integra-se à lógica da expansão de rotas ligadas à Iniciativa Cinturão e Rota, ainda que com formatos adaptados à realidade sul-americana.
O que a Ferrovia Bioceânica representa para o futuro da integração China-América do Sul?
A discussão sobre a Ferrovia Bioceânica extrapola a logística e entra diretamente no campo geopolítico, ao sinalizar uma reconfiguração de alianças econômicas e de dependências externas. A China já é o principal parceiro comercial de vários países sul-americanos, e a consolidação desse corredor ferroviário aprofundaria a aproximação estrutural entre as duas regiões.
Para a América do Sul, o desafio será equilibrar ganhos de competitividade e desenvolvimento regional com a diversificação de parceiros, a preservação ambiental e a distribuição ampla dos benefícios. Nos documentos oficiais brasileiros, o projeto é denominado predominantemente como Ferrovia Bioceânica, inserido nas Rotas de Integração Sul-Americanas e no Novo PAC, com o porto de Chancay consolidado como principal terminal de saída rumo ao Pacífico.