Dois hábitos simples do dia a dia voltaram ao centro do debate sobre envelhecimento saudável após um estudo apontar que podem reduzir em quase 40% o risco de demência, mostrando que práticas acessíveis como ler e escrever têm impacto direto na proteção do cérebro.
Como a estimulação cognitiva protege o cérebro?
Segundo a pesquisadora Andrea Zammit, envolver-se em atividades que exigem raciocínio, atenção e memória pode aumentar a chamada “reserva cognitiva”. Esse conceito descreve a capacidade do cérebro de compensar lesões ou perdas de neurônios, mantendo o funcionamento preservado por mais tempo.
A leitura diária estimula múltiplas áreas relacionadas à linguagem, memória e interpretação de contexto, enquanto a escrita mobiliza planejamento de ideias, organização de informações e coordenação motora fina. Aprender um novo idioma também é apontado como aliado importante, pois desafia o cérebro com novo vocabulário, gramática e sons, fortalecendo conexões neurais.
Quais hábitos ajudam a reduzir o risco de demência?
A pesquisa da Rush University Medical Center, nos Estados Unidos, destacou dois comportamentos centrais: ler e escrever com frequência ao longo da vida. Esses hábitos, mantidos de forma regular, foram associados a menor probabilidade de desenvolver doença de Alzheimer e outros tipos de comprometimento cognitivo.
Os pesquisadores acompanharam 1.939 participantes com idade média de 80 anos, todos sem diagnóstico de demência no início do estudo, por cerca de oito anos. Ao final, 551 desenvolveram Alzheimer e 719 apresentaram algum grau de déficit cognitivo, sendo que aqueles com melhor desempenho cerebral liam e escreviam com mais constância.
Quais atividades diárias fortalecem a reserva cognitiva?
Os especialistas ressaltam que a regularidade das atividades importa mais do que a complexidade do material escolhido. O efeito protetor está associado ao hábito contínuo, não necessariamente à dificuldade do conteúdo lido ou escrito, e pode ser incorporado de forma simples na rotina.
Para tornar essa prática mais concreta e variada, é possível adotar diferentes formas de leitura, escrita e aprendizado que se ajustem ao interesse e ao nível educacional de cada pessoa:
- Ler: livros, notícias, artigos, estudos bíblicos ou textos acadêmicos.
- Escrever: diários, listas, resumos, e-mails mais elaborados, cartas ou textos criativos.
- Aprender idiomas: cursos presenciais, aplicativos, aulas on-line ou grupos de conversação.
Como aplicar essas estratégias no dia a dia para prevenir demência?
O estudo também levanta uma discussão sobre políticas públicas e acesso à educação ao longo da vida. Ampliar bibliotecas, clubes de leitura e programas educacionais desde a infância pode estimular o gosto pelo aprendizado, reduzindo em escala populacional o risco de demência nas próximas décadas.
No plano individual, pequenas mudanças de rotina podem trazer benefícios cumulativos, especialmente na terceira idade. Adotar metas diárias de leitura, manter o hábito de escrever e participar de atividades coletivas ajuda a manter a mente ativa e socialmente engajada:
- Separar ao menos 20 a 30 minutos por dia para leitura contínua.
- Manter o hábito de escrever à mão ou no computador, mesmo que em pequenos textos.
- Participar de grupos de estudo, clubes de leitura ou cursos de idiomas.
- Alternar tipos de leitura: romances, textos informativos, biografias e reportagens longas.
- Estimular crianças e idosos da família a terem contato frequente com livros e materiais educativos.
Quais sinais de demência precisam de atenção e acompanhamento médico?
Neurologistas lembram que os sinais iniciais de demência podem ser discretos, como piora do sentido de direção ou dificuldades crescentes em tarefas habituais. A síndrome de risco motor cognitivo, que combina queixas de memória com lentidão ao caminhar, está associada a maior probabilidade de evolução para quadros demenciais.
Os sintomas variam conforme o tipo de demência: na doença de Alzheimer, predominam esquecimentos recorrentes, desorganização e mudanças de julgamento; já na demência com corpos de Lewy, problemas motores e quedas frequentes são mais comuns. Condições como a hidrocefalia de pressão normal podem causar alterações na marcha, problemas de memória e incontinência urinária, e o diagnóstico precoce é decisivo, pois permite tratamento e possível melhora dos sintomas, sempre em complemento a hábitos de estimulação mental.