A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre os medicamentos Wegovy e Ozempic reacendeu o debate em torno do uso da semaglutida para além do controle de peso e do diabetes, ao aprovar nesta segunda-feira (2/2) novas indicações terapêuticas voltadas à proteção cardiovascular e à doença renal crônica, com potencial impacto direto no tratamento de milhões de pessoas em um cenário de alta incidência de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e complicações renais associadas ao diabetes tipo 2.
Como o Wegovy reduz o risco cardiovascular em pessoas com obesidade?
Os dados apresentados à Anvisa indicam que a semaglutida, quando utilizada de forma adequada e combinada com medidas de estilo de vida, pode reduzir eventos graves que costumam levar à internação, incapacidade ou morte. A estimativa de cerca de 400 mil óbitos anuais no país por infarto ou AVC dimensiona o alcance potencial dessa indicação, sobretudo entre pessoas com obesidade, sobrepeso e doença cardiovascular estabelecida.
O Wegovy, antes conhecido principalmente como medicamento para controle de peso, passa a ter papel ampliado na redução do risco de infarto agudo do miocárdio e AVC em adultos com doença cardiovascular e obesidade ou sobrepeso. O efeito protetor foi observado em associação a dieta hipocalórica e aumento da atividade física, consolidando o remédio como parte de uma abordagem integrada de prevenção cardiovascular, sem substituir mudanças de estilo de vida.
Como o Ozempic contribui para proteger a função renal em pessoas com diabetes tipo 2?
O Ozempic, também à base de semaglutida, teve sua indicação ampliada para incluir o tratamento de pacientes com diabetes mellitus tipo 2 associado à doença renal crônica. Nessa população, o risco de perda progressiva da função dos rins e de eventos cardiovasculares é elevado, o que torna a escolha da terapia um ponto central no acompanhamento clínico.
Segundo a Anvisa, o estudo submetido pelo fabricante mostrou que o uso do Ozempic, em conjunto com a terapia padrão para diabetes e doença renal, resultou em redução relevante da progressão da insuficiência renal. Também houve queda na mortalidade por eventos cardiovasculares maiores, oferecendo dupla proteção para rins e sistema cardiovascular e potencialmente retardando a necessidade de diálise ou transplante.
Quais pacientes podem se beneficiar mais das novas indicações da semaglutida?
A semaglutida, presente tanto no Wegovy quanto no Ozempic, assume papel reforçado na proteção cardiovascular e renal, mas não deve ser usada de forma indiscriminada. As novas indicações se destinam a perfis específicos de pacientes, definidos por critérios clínicos claros e pela avaliação individualizada do médico.
Para esclarecer esses perfis e facilitar o entendimento de quem pode ser elegível ao tratamento, destacam-se os principais grupos de pacientes que podem se beneficiar das novas indicações aprovadas pela Anvisa:
- Wegovy: adultos com doença cardiovascular estabelecida (histórico de infarto, AVC ou angina), que também apresentem obesidade ou sobrepeso, em uso de dieta hipocalórica e programa de atividade física.
- Ozempic: pessoas com diabetes mellitus tipo 2 e doença renal crônica, em uso de terapia padrão para controle glicêmico, pressão arterial e colesterol.
- Ambos: pacientes sem contraindicações relevantes à semaglutida, como histórico de pancreatite grave ou certas doenças endócrinas, sempre após orientação médica.
Como as novas indicações podem mudar o cuidado com coração e rins?
A aprovação da Anvisa insere Wegovy e Ozempic em uma tendência de uso de medicamentos que combinam controle metabólico com proteção de órgãos-alvo, como coração, cérebro e rins. Em vez de focar apenas na glicemia ou no peso, a estratégia terapêutica passa a considerar desfechos como internações, perda de função renal e mortalidade por eventos cardiovasculares.
Especialistas ressaltam a importância da integração entre cardiologia, endocrinologia e nefrologia, já que muitos pacientes com diabetes tipo 2 e obesidade apresentam simultaneamente alto risco cardiovascular e comprometimento renal. A médio e longo prazo, a adoção de terapias com efeito protetor sobre coração e rins pode influenciar protocolos clínicos, políticas públicas, cobertura por planos de saúde e custos relacionados a infartos, AVCs e doença renal crônica.