A crise entre servidores e direção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ganhou um novo capítulo com a mudança no comando da área responsável pelo cálculo do Produto Interno Bruto (PIB) e de outros indicadores econômicos. A saída de Rebeca Palis da Coordenação de Contas Nacionais, somada ao pedido de desligamento de outros três técnicos em solidariedade, acendeu o alerta dentro do órgão às vésperas da divulgação do PIB de 2025, reacendendo o debate sobre autonomia técnica, transparência e gestão interna no IBGE.
Quais as últimas mudanças no IBGE?
Segundo informações do Metrópoles, a troca na Coordenação de Contas Nacionais ocorre pouco mais de um mês antes da divulgação do resultado do PIB de 2025, prevista para o início de março. A área reúne informações de diversos setores da economia para compor o principal indicador de atividade do país e outras estatísticas usadas em planejamento público e privado.
A mudança repentina, sem detalhamento público das razões, gerou reação entre servidores e preocupação com a estabilidade do trabalho técnico. Para especialistas, alterações em postos estratégicos sem explicações claras podem fragilizar a percepção de neutralidade e previsibilidade da produção estatística oficial.
Como se aprofunda a crise entre servidores e direção do IBGE?
De acordo com representantes do Sindicato Nacional dos Trabalhadores do IBGE (Assibge), os desligamentos na área do PIB se somam a episódios anteriores de substituições em cargos de confiança, como os registrados no Centro de Documentação e Disseminação de Informações (CDDI) em 2025. A crítica central é a sensação de arbitrariedade nas trocas e de distanciamento da direção em relação às atribuições legais e ao papel institucional do instituto.
Desde então, a relação entre direção e servidores é descrita como desgastada, com dificuldades de diálogo e dúvidas sobre a participação do corpo técnico em decisões estruturantes. A previsibilidade na gestão é vista como essencial para resguardar a credibilidade das estatísticas e reduzir percepções de interferência política em áreas sensíveis.
Quem é Márcio Pochmann e como sua gestão influencia a empresa?
A nomeação de Márcio Pochmann para a presidência do IBGE, em julho de 2023, foi recebida com resistência por setores internos e externos ao órgão. Economista ligado à ala mais ideológica do Partido dos Trabalhadores, ele assumiu com a missão de reposicionar o instituto após anos de restrição orçamentária, mas passou a enfrentar embates com servidores da área técnica.
O ponto de tensão mais visível ocorreu em 2024, com a proposta de criação da Fundação IBGE, voltada à captação de recursos públicos e privados para financiar pesquisas. O sindicato e pesquisadores apontaram risco de interferência externa na definição de agendas estatísticas, o que levou servidores a divulgarem carta aberta citando “posturas autoritárias” e viés político e midiático na condução do órgão, resultando na suspensão da proposta pelo governo federal.
Como a crise pode impactar os indicadores econômicos oficiais?
A preocupação central não está apenas na troca de nomes, mas na possibilidade de que o ambiente interno afete a continuidade dos trabalhos. O cálculo do PIB e de outros indicadores econômicos segue metodologias padronizadas internacionalmente, revisadas por organismos como ONU, FMI e OCDE, o que dá robustez às séries, mas exige equipes estáveis, experientes e com autonomia.
Nesse contexto, analistas de políticas públicas apontam alguns efeitos potenciais da tensão institucional sobre o funcionamento do IBGE e a percepção dos usuários de dados:
- Risco de atrasos em divulgações, caso equipes sejam reestruturadas sem planejamento adequado.
- Perda de quadros experientes, com saída de técnicos que detêm conhecimento acumulado sobre séries complexas.
- Dúvidas sobre independência técnica, mesmo com manutenção das normas e metodologias consolidadas.
- Pressão adicional sobre novos gestores, que precisam dominar rapidamente bases extensas e processos delicados.