O debate sobre o uso medicinal da cannabis ganhou novo fôlego no Brasil com o avanço regulatório em torno do canabidiol (CBD) e do tetraidrocanabinol (THC). Embora a maconha siga ilegal para uso recreativo, derivados da planta têm sido incorporados a protocolos de tratamento em diferentes especialidades médicas, enquanto órgãos reguladores discutem regras de cultivo, produção, fiscalização e distribuição com foco na segurança do paciente e no controle sanitário.
Como a Anvisa regula a cannabis medicinal no Brasil?
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) atua como protagonista ao estabelecer normas que vão do plantio à comercialização de medicamentos à base de cannabis. As propostas atuais liberam o cultivo apenas para fins medicinais e farmacêuticos, com forte controle sobre volume produzido, teor de THC e rastreabilidade das áreas de plantio.
A expectativa é ampliar o acesso sem abrir brechas para desvio de finalidade ou uso fora do padrão legal. A agência também define critérios de qualidade, boas práticas de fabricação e exigências de rotulagem, garantindo padronização e segurança aos pacientes e profissionais de saúde.
Qual é a situação do mercado de cannabis medicinal no Brasil?
O mercado de cannabis medicinal no Brasil registra crescimento consistente e já movimenta centenas de milhões de reais ao ano. Em 2024, houve aumento expressivo em relação a 2023, impulsionado pela maior oferta de produtos, ampliação do número de pacientes e maior aceitação entre médicos.
Estudos de mercado estimam centenas de milhares de pacientes em uso de produtos à base de cannabis em 2024, com milhares de novos usuários a cada ano. A diversidade de formatos óleos, cápsulas, gomas, sprays e tópicos e a forte participação de empresas estrangeiras por meio da importação direta ajudam a sustentar essa expansão.
Como canabidiol e THC são utilizados na prática médica?
O canabidiol é um composto não psicoativo da cannabis, usado sobretudo como anticonvulsivante e analgésico em casos refratários a tratamentos tradicionais, como formas graves de epilepsia. Estudos desde a década de 1970 embasam seu uso em crianças e adultos, com redução importante na frequência de crises em parte dos pacientes.
O tetraidrocanabinol (THC), principal componente psicoativo da planta, também tem uso medicinal em doses controladas, especialmente em quadros de espasticidade, náuseas intensas por quimioterapia e perda de apetite em doenças específicas. No uso terapêutico, a administração é feita por vias oral, sublingual ou tópica, com formulações padronizadas e sem combustão ou fumo.
Quais são mitos e fatos sobre o canabidiol e a cannabis medicinal?
Um mito recorrente é que o canabidiol provoca o “barato” associado ao uso recreativo da maconha, o que não é verdadeiro. O CBD não é psicoativo; o efeito de alteração de percepção está ligado ao THC, sobretudo em concentrações elevadas e sem controle médico, motivo pelo qual muitos medicamentos mantêm teor de THC igual ou abaixo de 0,3%.
Outra dúvida comum é se o canabidiol causa dependência. Até o momento, revisões científicas não apontam evidências de que o CBD isolado gere dependência química, embora o acompanhamento médico seja indispensável em qualquer tratamento farmacológico. A planta contém centenas de substâncias, e a combinação e dosagem dessas moléculas determinam o perfil de segurança.
Como funciona o acesso ao canabidiol pelo SUS e na rede privada?
No Brasil, o acesso ao canabidiol e a outros derivados da cannabis ocorre principalmente por compra em farmácias e por importação autorizada. Desde 2019, a Anvisa permite a venda em drogarias de medicamentos aprovados, mediante receita especial, com produtos que possuem registro sanitário ou autorização de fabricação.
Já a resolução de 2022 possibilita a importação de produtos de cannabis por pessoas físicas para uso medicinal, mediante cadastro, laudo e receita médica. Embora essa via possa reduzir custos em alguns casos, ainda há obstáculos financeiros relevantes, o que torna programas de distribuição pelo Sistema Único de Saúde (SUS), como o implantado em São Paulo, estratégicos para pacientes de baixa renda.
Quais regras orientam o cultivo, a produção e a fiscalização da cannabis medicinal?
As propostas em discussão na Anvisa restringem o cultivo de cannabis para fins medicinais a pessoas jurídicas autorizadas, sob rígida fiscalização de toda a cadeia produtiva. A “lógica de compatibilidade” limita a quantidade plantada ao volume necessário para atender à demanda de medicamentos previamente aprovada, evitando excedentes e possíveis desvios.
Para cumprir essa lógica de controle, diferentes mecanismos de monitoramento e segurança vêm sendo estruturados, envolvendo tanto tecnologias de rastreabilidade quanto a atuação conjunta de órgãos sanitários e de segurança pública:
🧩 Cadeia de custódia e controle de conformidade
Rastreio • Laboratório • Fiscalização • SegurançaRastreabilidade do plantio
Georreferenciamento, registro fotográfico e monitoramento contínuo das áreas de plantio.
Foco: origem comprovada e histórico auditável da produção.
RastreioControle laboratorial por lote
Análise de teor de THC e certificação de qualidade para cada lote de matéria-prima e produto final.
Foco: padronização, segurança e conformidade do produto.
LaboratórioInspeções periódicas
Vistorias em cultivos e fábricas para verificação de conformidade com normas sanitárias.
Foco: auditoria, boas práticas e correção de desvios.
SanitárioTransporte com segurança
Coordenação com forças de segurança para reduzir riscos de roubo, desvio e uso irregular.
Foco: integridade da carga e prevenção de desvio.
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