O chamado Domo de Ouro voltou ao centro do debate internacional após ser associado aos planos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para a Groenlândia, combinando defesa antimísseis, disputa geopolítica no Ártico e interesses econômicos em recursos naturais, em um projeto estimado em cerca de US$ 175 bilhões, com meta de ficar operacional até 2029.
Como funcionará o Domo de Ouro e qual é sua finalidade?
O Domo de Ouro, ou Golden Dome, é apresentado como um sistema de defesa antimísseis de grande escala, projetado para cobrir o território americano contra diferentes tipos de projéteis. A inspiração é o Domo de Ferro de Israel, porém com alcance muito maior e voltado a ameaças de alcance intercontinental.
Segundo o governo Trump, o sistema buscaria enfrentar mísseis balísticos, hipersônicos e de cruzeiro, integrando radares, sensores, satélites e interceptores em uma única rede digitalizada. O objetivo declarado é detectar qualquer lançamento hostil e reagir em segundos, reduzindo a vulnerabilidade de infraestrutura, forças armadas e grandes cidades dos Estados Unidos.
Como o Domo de Ouro funcionaria na prática?
A proposta do Domo de Ouro foi desenhada para atuar em todas as etapas de um ataque com mísseis, por meio de uma arquitetura escalonada em camadas de defesa sobrepostas. A lógica é criar redundância, de forma que múltiplos sistemas tenham a chance de neutralizar um projétil antes do impacto.
De forma simplificada, o plano divulgado pelo governo prevê quatro fases principais de atuação, que ilustram como a defesa se organizaria ao longo do curso de um ataque:
- Antes do lançamento: uso de inteligência e vigilância para identificar preparativos e, se possível, neutralizar a ameaça ainda no solo inimigo.
- Estágio inicial do voo: interceptores de longo alcance, baseados em terra, mar ou no ar, tentariam destruir o míssil logo após o disparo.
- Fase intermediária: satélites e radares de alcance global acompanhariam a trajetória no espaço, guiando novos interceptores.
- Minutos finais: sistemas de defesa de ponto, próximos a cidades ou instalações estratégicas, agiriam como última barreira.
Por que a Groenlândia é estratégica para o Domo de Ouro?
A Groenlândia ocupa um local sensível no tabuleiro geopolítico, entre a América do Norte e a Rússia, em área crucial para a segurança do Ártico. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos mantiveram cerca de 10 mil militares na ilha; hoje, esse contingente foi reduzido para menos de 200, embora ainda exista uma base aérea americana em operação.
Em termos de trajetória, a rota mais curta para mísseis balísticos russos alcançarem o território continental dos EUA passa pelo espaço aéreo sobre ou próximo à Groenlândia. Instalar ali radares de longo alcance e baterias de interceptores daria ao Domo de Ouro minutos preciosos de detecção e resposta, além de reforçar o controle sobre a lacuna GIUK, corredor marítimo estratégico entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido.
Quais são os interesses econômicos e ambientais na Groenlândia?
Além da posição militar, a Groenlândia desperta atenção por seu potencial econômico, com reservas de petróleo, gás, minerais críticos e elementos de terras raras. Esses insumos são fundamentais para veículos elétricos, turbinas eólicas, baterias e tecnologias militares de última geração, ampliando o peso da ilha na política de segurança e energia dos EUA.
O derretimento do gelo no Ártico, impulsionado pelas mudanças climáticas, abre novas rotas de navegação e facilita o acesso a esses recursos, ao mesmo tempo em que aumenta riscos ambientais. Esse cenário aprofunda o dilema entre exploração econômica, proteção do ecossistema ártico e expansão da infraestrutura militar ligada ao Domo de Ouro.