Nesta quinta-feira (22/1), a criação de uma nova empresa para gerir o TikTok nos Estados Unidos marca um dos episódios mais longos e complexos na relação entre tecnologia, política e segurança nacional, resultado de uma combinação de pressões políticas, decisões judiciais e mudanças regulatórias iniciadas em 2020, em um cenário de disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.
O que o acordo sobre o TikTok nos EUA determina à nova empresa?
O ponto central do acordo é a criação de uma nova empresa, estruturada como uma joint venture, responsável exclusivamente pelas operações do TikTok em território americano. Investidores dos Estados Unidos e de outros países terão participação majoritária de 80,1%, enquanto a ByteDance manterá 19,9%, com destaque para Oracle, Silver Lake e MGX entre os principais acionistas.
Segundo a plataforma, os dados dos usuários norte-americanos serão armazenados em um ambiente de nuvem seguro operado pela Oracle dentro dos EUA. A nova empresa, identificada como USDS Joint Venture, implementará um programa abrangente de privacidade de dados e segurança cibernética, com auditorias independentes e autonomia para decidir sobre políticas de confiança, segurança e moderação de conteúdo voltado ao público americano.
Como a nova estrutura do TikTok nos EUA vai impactar?
O debate em torno do TikTok nos EUA está diretamente ligado ao conceito de “segurança nacional”. Em 2020, o governo Donald Trump tentou banir o aplicativo, alegando risco de acesso a dados por autoridades chinesas e possibilidade de uso da plataforma para propaganda, acusação sempre negada pela ByteDance.
Para reduzir essas preocupações, a estratégia foi separar formal e tecnicamente a operação americana da estrutura global. Entre as principais medidas de proteção previstas no acordo, destacam-se:
- armazenamento de dados de usuários dos EUA em servidores localizados em solo americano;
- gestão de segurança cibernética supervisionada pela Oracle, empresa de tecnologia dos EUA;
- auditorias e certificações por entidades terceirizadas especializadas em segurança digital;
- poder decisório local sobre políticas de confiança, segurança e moderação de conteúdo.
Como foi o caminho político e jurídico até a formalização do acordo?
A tensão em torno do TikTok começou oficialmente em agosto de 2020, quando o presidente Donald Trump tentou banir o aplicativo por decreto. As ordens executivas foram contestadas na Justiça, gerando disputas prolongadas que mantiveram o serviço no ar e adiaram qualquer decisão definitiva sobre o futuro da plataforma.
Nos anos seguintes, houve tentativas de venda parcial do negócio, negociações com empresas americanas e longos debates no Congresso sobre privacidade de dados e influência estrangeira. Em 2024, uma lei passou a exigir que a ByteDance cedesse o controle da operação do TikTok no país, e, após sucessivas prorrogações, a venda da participação majoritária foi assinada em 2025 e formalizada em 22 de janeiro de 2026, sendo publicamente celebrada por Trump e aprovada por Pequim.
Quais mudanças podem ocorrer para usuários do TikTok nos EUA?
Até o momento, não há indicação de mudanças imediatas na experiência diária dos usuários do TikTok nos EUA, que continuam a utilizar a mesma interface e o modelo de vídeos curtos. Em memorando interno, o CEO global, Shou Chew, afirmou que a nova estrutura permitirá que usuários americanos continuem a “descobrir, criar e prosperar” dentro da comunidade global.
A maior autonomia da operação americana tende a influenciar políticas de transparência, relatórios de moderação e resposta a autoridades públicas. Especialistas apontam que o caso pode servir de referência para futuras negociações envolvendo outros aplicativos, serviços de nuvem e grandes plataformas digitais em contexto de disputas geopolíticas e exigências regulatórias mais rígidas.