O achado de um grande navio mercante no fundo do mar da Dinamarca está ajudando a reescrever parte da história da navegação medieval. Com cerca de 28 metros de comprimento, nove metros de largura e capacidade estimada para 300 toneladas de carga, o naufrágio foi identificado como a maior coca medieval já encontrada. Datado do início do século XV, o navio, batizado de Svælget 2, é considerado um marco da arqueologia marítima europeia e uma fonte rara de informações sobre tecnologia naval, comércio e vida a bordo.
Por que o Svælget 2 é o maior e mais importante navio mercante medieval já encontrado?
A descoberta do Svælget 2 amplia o conhecimento sobre o porte e a capacidade das cocas, principal tipo de navio mercante medieval no norte da Europa. Com estimadas 300 toneladas de carga, o navio indica dimensões superiores às sugeridas por parte da literatura histórica baseada apenas em documentos e ilustrações.
Localizado a 13 metros de profundidade, o casco está surpreendentemente bem preservado graças a uma espessa camada de areia que o protegeu por cerca de 600 anos. Essa conservação excepcional permite observar detalhes construtivos e operacionais raros em embarcações comerciais da Idade Média, servindo como referência para estudos comparativos com outros naufrágios europeus. Veja imagens (Reprodução/X/@DAntiquis):
Archaeologists have uncovered the largest known medieval cargo ship—Svaelget 2—a 600-year-old cog about 92 ft long with a 300 ton capacity, found intact under the Øresund Strait. This discovery sheds new light on medieval Northern European trade.#Archaeology #Shipwreck… pic.twitter.com/i07ppTFCWO
— De Antiquis (@DAntiquis) January 14, 2026
Como o super-navio medieval ajuda a compreender o comércio marítimo medieval?
As cocas se destacavam por transportar grandes volumes com tripulações relativamente reduzidas, ligando portos da atual Holanda ao Mar Báltico por rotas que contornavam Skagen e cruzavam o Estreito de Øresund. O Svælget 2 oferece um exemplo concreto dessa “espinha dorsal” do comércio marítimo, em uma época em que o transporte por navio sustentava o crescimento econômico de cidades costeiras.
Outro ponto relevante é a confirmação física dos “castelos”, plataformas de madeira nas extremidades do navio, antes conhecidas quase só por ilustrações. As ruínas de um extenso castelo de popa ajudam a entender suas funções como área de comando, observação e abrigo da tripulação, além de sugerirem possíveis adaptações defensivas em contextos de pirataria e conflitos regionais.
Como era a vida a bordo do super-navio medieval?
Os objetos encontrados no interior do naufrágio revelam o cotidiano dos marinheiros no século XV, com rotinas definidas de trabalho, alimentação e religiosidade. Entre os itens recuperados estão pratos de madeira pintados, sapatos, pentes, terços e utensílios domésticos, indicando espaços específicos para refeições, descanso e práticas espirituais.
Também foram localizados restos de provisões, como peixe e carne, além de madeira finamente cortada que pode ter sido usada no preparo de bacalhau seco, típico de viagens longas. A ausência de armamentos e estruturas de combate reforça que o Svælget 2 operava estritamente como cargueiro, o que ajuda a diferenciar o perfil de navios comerciais em relação a embarcações militares da mesma época.
Como era a tecnologia e conforto a bordo?
Um dos achados mais comentados é a cozinha de tijolos instalada no interior do navio, composta por cerca de 200 tijolos e 15 telhas. Essa estrutura para fogo aberto, associada a panelas de bronze, tigelas de cerâmica e utensílios de mesa, demonstra um sistema organizado de preparo de alimentos em pleno mar e sugere maior regularidade e segurança nas refeições.
Considerada a mais antiga cozinha de tijolos já identificada em águas dinamarquesas, ela indica uma fase de transição tecnológica em que soluções de conforto e segurança a bordo se aproximavam dos padrões em terra. O Svælget 2 mostra como inovação e comércio se articulavam em rotas que moldavam economias e contatos culturais no norte da Europa. Após a escavação inicial, os componentes do Svælget 2 foram encaminhados para conservação no Museu Nacional de Brede, processo essencial para estabilizar madeira e outros materiais após séculos submersos. Embora nenhum vestígio direto de carga tenha sido identificado, a ausência de lastro e a forma como o casco foi encontrado sugerem que o navio provavelmente estava carregado ao limite no momento do naufrágio.