O interesse pela beleza das línguas acompanha estudiosos e curiosos há décadas. A forma como os sons se organizam, o ritmo das palavras e até o tipo de voz de quem fala influenciam a percepção de um idioma, como mostram pesquisas que colocam o Tok Pisin, língua crioula da Papua-Nova Guiné, entre os idiomas considerados mais atraentes.
O que é o Tok Pisin e qual é a sua relevância linguística?
O Tok Pisin é uma língua crioula falada principalmente na Papua-Nova Guiné, com raízes no inglês, em línguas austronésias e em idiomas locais. Trata-se de um sistema linguístico completo, com gramática própria, vocabulário em expansão e uso em contextos formais e informais.
Estima-se que seja falado por cerca de 4 milhões de pessoas como segunda língua e por aproximadamente 120 mil a 122 mil falantes como primeira língua. É ainda uma das três línguas oficiais do país, ao lado do inglês e do Hiri Motu, consolidando-se como principal língua franca nacional.

Por que o Tok Pisin é considerado uma língua atraente?
Em estudos comparativos postados na revista científica PNAS, o Tok Pisin apareceu entre os idiomas mais atraentes, superando até línguas tradicionalmente vistas como “melódicas”, como o francês e o italiano. Essa surpresa se explica, em parte, por sua estrutura sonora simples, baseada em sílabas claras e ritmo estável.
Outro fator é o efeito da novidade sonora: para muitos ouvintes, o Tok Pisin soa diferente das línguas mais presentes na mídia, sem ser totalmente estranho por ter forte influência do inglês. A voz usada nas gravações, especialmente timbre e entonação, também contribuiu para avaliações mais positivas.
Veja abaixo no vídeo do canal ILoveLanguages!, que conta com mais de 97 mil visualizações, como é a pronúncia básica do Tok Pisin:
O que os estudos sobre beleza linguística realmente medem?
A expressão beleza linguística é abstrata, mas pesquisas procuram traduzi-la em critérios observáveis, como agradabilidade, suavidade ou estranheza. Participantes costumam ouvir trechos em diversos idiomas sem contexto, focando apenas na sonoridade.
Esses estudos mostram que a percepção de uma língua bonita resulta de múltiplos fatores, e não só de vogais abertas ou consoantes suaves. Entre os elementos mais recorrentes nas avaliações, destacam-se:
- Familiaridade com o idioma ou com línguas aparentadas;
- Contexto cultural e imagens associadas ao país ou povo falante;
- Tipo de voz, incluindo timbre, ritmo e entonação de quem fala.
Existe uma sonoridade universalmente bonita nas línguas?
Pesquisas recentes indicam que não há consenso sobre um conjunto de sons universalmente belo em qualquer cultura. Ainda assim, surgem tendências gerais, como maior aceitação de idiomas não tonais entre falantes de línguas europeias.
Ritmos regulares, pausas bem distribuídas e ausência de sequências muito marcadas de consoantes glotais são, em geral, recebidos de forma mais positiva. No entanto, a história de escuta e o repertório linguístico de cada pessoa moldam fortemente tais preferências.
Como a beleza das línguas influencia ensino, mídia e cultura?
Os estudos sobre atratividade dos idiomas ajudam a entender como padrões sonoros afetam nossas emoções e julgamentos. No ensino, por exemplo, reconhecer que a familiaridade aumenta a sensação de beleza pode orientar estratégias para apresentar línguas pouco conhecidas de forma mais acolhedora.
Na mídia, a escolha de vozes, ritmos de fala e idiomas em dublagens e campanhas pode impactar a recepção do conteúdo. Assim, o debate sobre beleza linguística contribui para reflexões mais amplas sobre comunicação, diversidade e percepção cultural.