O embate entre a Casa Branca e o Federal Reserve ganhou novo capítulo no domingo (12/1) com a confirmação de que o presidente do banco central dos Estados Unidos, Jerome Powell, está sendo formalmente investigado pelo governo Donald Trump. A apuração tem como foco o depoimento prestado por Powell ao Congresso em junho do ano anterior, quando tratou, entre outros temas, da reforma bilionária da sede do Fed em Washington, ampliando a tensão em torno da independência da autoridade monetária em meio a disputas sobre juros e gastos públicos.
O que envolve a investigação contra Jerome Powell?
A investigação tem como ponto de partida o depoimento que Powell concedeu à Comissão Bancária do Senado, em junho, sobre temas institucionais e orçamentários do Federal Reserve. Parte das perguntas girou em torno de um projeto de reforma dos prédios históricos da instituição, estimado em alguns bilhões de dólares, com foco em supostas divergências entre custos divulgados e valores efetivos.
Segundo comunicado em texto e vídeo, Powell informou que o Departamento de Justiça entregou intimações de um grande júri ao Federal Reserve, sinalizando possível abertura de processo criminal. Ele afirma que a reforma da sede e seu depoimento funcionam como pretextos para uma ofensiva política mais ampla contra o banco central, testando os limites da autonomia da política monetária nos Estados Unidos.
Como a independência do Fed é pressionada pela Casa Branca?
Donald Trump critica há meses o nível das taxas de juros, defendendo cortes mais agressivos para impulsionar o crescimento e o mercado de trabalho, além de pressionar para que a próxima liderança do Fed se alinhe à sua agenda econômica e fiscal.
Em seu comunicado, Powell afirmou que a questão central é saber se o Federal Reserve continuará definindo juros com base em evidências econômicas ou sob pressão política e intimidações. Ele descreveu a investigação como uma ação sem precedentes em meio a críticas públicas, tentativas de interferência e ameaças a integrantes do alto escalão do banco central, reiterando o compromisso com o mandato legal de estabilidade de preços e pleno emprego.
Por que a reforma da sede do Fed virou alvo político?
O projeto de modernização da sede do Federal Reserve, em Washington, tornou-se foco de disputa ao ser associado a suposta má gestão de recursos. Trump e assessores apontaram um aumento de custos como símbolo de desperdício, alegando que o orçamento teria saltado de cerca de US$ 2,5 bilhões para algo em torno de US$ 3,1 bilhões, diferença contestada por Powell.
Powell argumenta que parte dos valores mencionados não corresponde ao desenho final do projeto e que ajustes técnicos em um plano plurianual explicam variações de orçamento. A obra, que envolve preservação histórica e atualização de sistemas de segurança e tecnologia, passou a ser usada como instrumento retórico em debates sobre responsabilidade fiscal e uso de dinheiro público.
Quais são as pressões políticas e riscos institucionais para o Fed?
O caso de Jerome Powell ocorre em paralelo a outras iniciativas da Casa Branca para ampliar influência sobre o conselho do Fed, incluindo tentativas de afastar integrantes. A iniciativa de destituir Lisa Cook, membro do Conselho de Governadores acusada de fraude hipotecária, foi interpretada por analistas como parte de um esforço para sujeitar a instituição a maior controle político e reduzir vozes independentes.
Esse ambiente de conflito permanente pode afetar a credibilidade acumulada pelo Fed, cuja legitimidade depende da percepção de que decisões sobre juros não são ditadas pelo governo de turno. Investidores globais e bancos centrais estrangeiros acompanham de perto sinais de interferência indevida, enquanto legisladores discutem o reforço de salvaguardas legais para proteger dirigentes da autoridade monetária de investigações percebidas como retaliatórias ou motivadas por divergências de política econômica.