A saída inesperada de Dolf van den Brink da presidência-executiva da Heineken reacendeu o debate sobre os desafios enfrentados pela indústria global de bebidas alcoólicas. A renúncia, anunciada nesta segunda-feira (12/1), após seis anos à frente da cervejaria holandesa, ocorre em um momento de vendas mais fracas, pressão sobre margens e cobrança por maior retorno aos acionistas, poucos meses depois da apresentação de uma nova estratégia com metas traçadas até 2030.
Como foi a renúncia do CEO da Heineken?
Van den Brink assumiu o comando da segunda maior fabricante de cerveja do mundo em junho de 2020, em plena pandemia de Covid-19, enfrentando inflação de custos, mudanças de consumo e ambiente econômico instável. Mesmo com ajustes de portfólio e foco em eficiência, a Heineken encontra dificuldades para acelerar o crescimento de vendas em várias regiões, ficando atrás de alguns concorrentes em rentabilidade e geração de valor ao acionista.
O conselho de supervisão iniciará imediatamente a busca por um sucessor, enquanto Dolf van den Brink permanece no cargo até 31 de maio de 2026 e, depois, atua como consultor por até oito meses. Segundo a empresa, a nova fase estratégica, com foco em eficiência de custos, fortalecimento de marcas globais, inovação em produtos e maior retorno para investidores, exige uma liderança capaz de acelerar ajustes estruturais e capturar melhor as oportunidades até 2030.
Qual o impacto do cenário econômico nas vendas de cerveja?
A renúncia está inserida em um quadro mais amplo de dificuldades da indústria de bens de consumo, marcado por inflação elevada, custo de vida pressionado e consumidores mais seletivos. No setor de cerveja, expectativas de retomada mais forte do consumo foram frustradas por clima desfavorável, incerteza política, renda familiar apertada e mudanças nos hábitos de lazer, que reduziram visitas a bares e eventos.
As cervejarias enfrentam obstáculos para aumentar volume sem depender de fortes reajustes de preços, sob risco de afastar parte do público, sobretudo em mercados emergentes sensíveis a renda. Ao mesmo tempo, cresce a concorrência de novas marcas, categorias alternativas, bebidas de menor teor alcoólico ou sem álcool e a preocupação com medicamentos para perda de peso e atitudes mais restritivas em relação ao álcool entre os mais jovens.
Quais os principais desafios para o novo CEO da Heineken?
Quem assumir o comando da Heineken encontrará um plano de longo prazo já definido, mas em ambiente de forte volatilidade política, regulatória e econômica. O sucessor de Dolf van den Brink terá de transformar a estratégia para 2030 em resultados concretos, equilibrando crescimento, rentabilidade, inovação e investimentos em tecnologia e digitalização comercial.
Nesse contexto, especialistas destacam que a empresa precisará endereçar pontos críticos para manter competitividade global e relevância de marca nos diferentes mercados em que atua:
- Reaquecer o crescimento de vendas de cerveja em mercados maduros e emergentes, ajustando preços e portfólio;
- Aumentar a eficiência operacional e reduzir custos sem comprometer a qualidade das marcas e da distribuição;
- Responder à concorrência de novas bebidas, incluindo opções sem álcool, de baixo teor calórico e premium;
- Ajustar o portfólio a um público jovem mais atento à saúde, consumo responsável e experiências digitais;
- Reforçar o retorno para investidores em um cenário de juros elevados e maior volatilidade cambial.
Qual o impacto para o consumidor?
A agenda de sustentabilidade e responsabilidade social continua central para grandes grupos de bebidas, com pressão regulatória crescente sobre publicidade de álcool, rotulagem, consumo moderado e impacto ambiental da cadeia produtiva. O novo líder terá de conciliar metas ambientais, como redução de emissões, uso eficiente de água e economia circular, com a necessidade de manter margens e competitividade.
No curto prazo, a saída do presidente-executivo afeta mais investidores, funcionários e parceiros comerciais do que o consumidor final, e não há sinal de mudanças bruscas em produtos ou disponibilidade. Porém, revisões estratégicas e de marketing podem, ao longo do tempo, influenciar preços, lançamentos, foco em determinados mercados e a forma como a empresa responde ao menor consumo de álcool entre parte dos jovens e à busca por hábitos mais saudáveis.